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Para onde está indo a indústria de celulose na China

  • há 2 horas
  • 10 min de leitura

O que os próprios executivos chineses revelaram ao mundo em Sundsvall: integração vertical, autossuficiência, excesso de capacidade e o impacto direto sobre o mercado global.



12/03/2026 - Para quem trabalha na indústria de celulose e papel, seja no Brasil, no Chile ou em qualquer país que exporte fibra, poucas perguntas são mais urgentes do que esta: o que está acontecendo, de verdade, dentro da China? Não o que analistas ocidentais projetam, mas o que os próprios chineses pensam sobre sua indústria, seus desafios e sua estratégia.


No Valmet Pulp Customer Days 2026, realizado em Sundsvall, na Suécia, dois blocos de informação responderam a essa pergunta com nitidez rara. Tom Wright, Managing Director da Hawkins Wright, a consultoria mais respeitada do setor de celulose, baseada em Londres, apresentou a visão externa: o que os dados globais dizem sobre a China. Em seguida, Li Zhi, executivo da Sun Paper, uma das 20 maiores empresas de papel do mundo, apresentou a visão de dentro: o que a própria indústria chinesa pensa sobre si mesma, seus projetos e para onde está indo.


O que emerge dessas duas perspectivas é um quadro complexo, contraditório em alguns aspectos e decisivo para qualquer produtor de celulose que dependa do mercado chinês.


UM MERCADO QUE DOMINA O MUNDO: OS NÚMEROS QUE DEFINEM O SETOR

Tom Wright começou sua apresentação com uma provocação simples, mas que sintetiza tudo: sua carreira começou no final dos anos 1990, quando a China mal existia como fator no mercado global de celulose. Menos de 25 anos depois, o país redefiniu completamente o setor. Nas palavras dele: qualquer análise séria do mercado global de celulose precisa partir da China porque, hoje, ela é o mercado global.


Os dados que ele apresentou são expressivos:

Participação na demanda global de BSKP (fibra longa branqueada) 36% do total mundial

Participação na demanda global de BHKP (fibra curta branqueada) 44% do total mundial

Participação na demanda global de BCTMP 38% do total mundial

Participação na demanda global de dissolving pulp (têxtil) 58% do total mundial

Participação no total geral de embarques globais de celulose 43% do mundo

Produção chinesa de papel cartão em 2025 164 milhões de toneladas


“Minha carreira começou quando a China era irrelevante para o mercado global de celulose. Hoje, 43% de todos os embarques globais de celulose vão para lá. O que acontece na China afeta absolutamente todo mundo nesta sala”, disse Tom.


AS TRÊS GRANDES RUPTURAS QUE REDEFINIRAM O MERCADO DE FIBRAS

Wright identificou três momentos de ruptura estrutural que, nos últimos vinte anos, transformaram completamente a cadeia de suprimento de fibras dentro da China. Compreender essa sequência é essencial para entender onde o mercado está hoje e para onde vai.


1. O fim das fibras não-madeira (anos 2000)

No início dos anos 2000, a China ainda utilizava enormes volumes de fibras não-madeira — palha de trigo, bagaço de cana, bambu — em sua produção de papel. Com o endurecimento das regulações ambientais e a obsolescência tecnológica dessas plantas, esse parque industrial foi progressivamente fechado. O impacto foi a remoção de vários milhões de toneladas de fibra do sistema produtivo doméstico, pressionando a demanda por alternativas.


2. A proibição do papel reciclado importado (2018–2021)

Em 2018, a China baniu a importação de todos os resíduos sólidos, incluindo o papel reciclado. O impacto foi colossal: o país perdeu mais de 20 milhões de toneladas de fibra reciclada equivalente. Esse vácuo imediato na cadeia de suprimento foi o principal gatilho para o salto na demanda por celulose de mercado importada nos anos seguintes, o que beneficiou diretamente produtores brasileiros e chilenos.


3. A expansão doméstica acelerada de celulose (últimos 5 anos)

Como resposta ao vácuo criado pela proibição do reciclado e à pressão por segurança de matéria-prima, a China investiu pesado na construção de nova capacidade doméstica de celulose de madeira. Wright apresentou dados que mostram um crescimento de 10,5 milhões de toneladas na produção doméstica de celulose nos últimos cinco anos.


O impacto sobre as importações foi direto: enquanto elas cresciam 1,5 milhão de toneladas por ano entre 2010 e 2020, esse ritmo caiu para apenas 500 mil toneladas anuais nos últimos cinco anos, uma desaceleração de dois terços que reescreveu as projeções de mercado de vários investidores.


“Crescimento de 10,5 milhões de toneladas na produção doméstica de celulose da China em cinco anos. E isso teve um grande impacto nas importações, especialmente para quem investiu bilhões baseado, principalmente, no crescimento das compras chinesas”, acrescentou o diretor.


A ARMADILHA DA DEFLAÇÃO: EXCESSO DE CAPACIDADE E MARGENS COMPRIMIDAS

Se a expansão doméstica foi uma resposta estratégica à dependência de importações, ela trouxe consigo uma consequência grave que Wright chamou de armadilha da deflação. Enquanto o mundo ocidental batalhou contra a inflação nos últimos anos, a China enfrentou exatamente o problema oposto: queda de preços generalizada em toda a economia industrial.


Na indústria de papel e celulose, isso se traduz em uma combinação tóxica: excesso de capacidade instalada, margens muito baixas e, em alguns casos, operação com prejuízo. O próprio Li Zhi reconheceu isso ao descrever a situação da indústria chinesa durante sua apresentação.


Wright foi preciso: com excesso de capacidade, nenhuma fábrica na China, ou muito poucas, consegue sustentar preço premium por qualquer tipo de fibra. A competição se dá exclusivamente por custo. Isso significa que fábricas integradas verticalmente, com acesso a fibra local mais barata, têm vantagem estrutural permanente sobre quem precisa importar.


O governo chinês reconheceu o problema. Em 2024 lançou a chamada política anti-involução, buscando combater o excesso de capacidade e a guerra de preços. Mas Wright foi cético: esse tipo de desequilíbrio estrutural não se resolve facilmente, mesmo em economias com forte controle central.


“Em nenhuma fábrica na China, ou em muito poucas, existe capacidade de pagar um prêmio por qualquer tipo de fibra. Elas usarão sempre a opção mais econômica disponível. Custo não é uma escolha, é um imperativo de sobrevivência”, disse Wright.


A CHINA EXPORTANDO PAPEL: PRESSÃO QUE AVANÇA TODA A CADEIA

Há um segundo efeito que Wright destacou como igualmente preocupante: o crescimento das exportações chinesas de papel cartão. Em quatro anos, essas exportações cresceram mais de 9 milhões de toneladas. Esse volume vai diretamente para mercados asiáticos, do Oriente Médio, da Europa e das Américas, competindo diretamente com os produtos de clientes que compram celulose de fornecedores como o Brasil.


A implicação prática é direta: a China não está apenas comprando menos celulose para crescimento doméstico. Ela está convertendo mais celulose em produto acabado internamente e exportando para os mesmos mercados que os clientes dos produtores de celulose atendem. É uma pressão que se move ao longo de toda a cadeia de valor, do fornecedor de fibra até o fabricante de papel.


Para produtores de papéis de embalagem, tissue e papel gráfico em outros países, incluindo o Brasil, esse crescimento representa concorrência não apenas no preço da celulose, mas no mercado do produto final.


A SUN PAPER: O MODELO CHINÊS DE INTEGRAÇÃO EXPLICADO POR DENTRO

Se a análise de Tom Wright representa a visão externa, a apresentação de Li Zhi, executivo da Sun Paper, ofereceu algo ainda mais valioso: o raciocínio estratégico da própria indústria chinesa, explicado diretamente pelos protagonistas.


A Sun Paper é um caso representativo do que a grande indústria chinesa se tornou. Fundada em 1982, tem hoje mais de 20 mil funcionários, opera três bases produtivas e seis fábricas entre China e Laos, com capacidade de 18 milhões de toneladas por ano de celulose e papel e receita anual de 80 bilhões de RMB. Está entre as 20 maiores empresas de papel do mundo.


OS DESAFIOS QUE A PRÓPRIA INDÚSTRIA RECONHECE SEM RODEIOS

Li Zhi foi direto ao descrever os desafios atuais:

  • O volume de produção cresce, mas as margens permanecem muito baixas; algumas empresas sofreram prejuízo;

  • A dependência de celulose importada ainda supera 30% do total consumido, gerando exposição à volatilidade de preços e câmbio;

  • As metas climáticas do governo chinês — Dual Carbon, com neutralidade de carbono até 2060 — adicionam custo e complexidade operacional;

  • A indústria precisa fazer a transição de um modelo de expansão de escala para um modelo de qualidade, eficiência e valor agregado.


A RESPOSTA ESTRATÉGICA: INTEGRAÇÃO VERTICAL COMO IMPERATIVO

A resposta da Sun Paper a esses desafios foi construir um dos modelos de integração vertical mais avançados da indústria. Hoje, mais de 60% de toda a celulose consumida pela empresa é produzida internamente. Na base de Guangxi, essa taxa chega a 90%.


Essa integração reduz dramaticamente a exposição à volatilidade dos preços de celulose no mercado internacional. E ela vem acompanhada de uma capacidade de flexibilidade que Li Zhi descreveu com detalhes: a empresa pode produzir diferentes tipos de celulose conforme a demanda do mercado, fibra curta, fibra longa, celulose mecânica, dissolving pulp, e pode converter uma máquina de papel entre produtos sem parar a planta.


Um exemplo concreto: a Sun Paper usa celulose de eucalipto em substituição à NBKP (fibra longa de softwood tipicamente importada do Brasil ou do Canadá) na produção de tissue, sem perda relevante de qualidade. Isso é substituição direta de importação, desenvolvida e viabilizada internamente.


“Nossa taxa de autossuficiência em celulose já supera 60%. Na base de Guangxi, chegamos a 90%. Isso nos permite reduzir significativamente a dependência de celulose importada e responder mais rapidamente às mudanças do mercado”, disse Li Zhi.


GUANGXI, SHANDONG E LAOS: A EXPANSÃO EM ESCALA CONCRETA

Li Zhi descreveu os investimentos recentes e em andamento com um nível de detalhe que oferece uma visão precisa do ritmo e da escala da expansão industrial chinesa.


BASE DE GUANGXI: DOIS COMPLEXOS INDUSTRIAIS EM SEIS ANOS

Em Guangxi, no sul da China, a Sun Paper construiu dois grandes complexos integrados de celulose e papel nos últimos seis anos. A fábrica de Beihai, iniciada em 2019 com tecnologia Valmet, incorporou cozimento contínuo G3, lavadores de celulose de quinta geração e controle inteligente de processo. Desde o startup em 2021, a produção real supera a capacidade projetada todos os anos.


A caldeira de recuperação de Beihai gera até 720 toneladas de vapor de alta pressão por hora e fornece 85% de toda a energia da planta, com emissões de particulados e SO2 extremamente baixas, operando com estabilidade contínua desde a partida.


A fábrica de Nanning entregou um resultado de ramp-up notável: apenas 13 meses entre a assinatura do contrato e o startup da linha de fibra. Em 22,5 horas após a alimentação inicial de cavacos de madeira, a planta já produzia celulose qualificada. Em um mês de operação, a produção diária atingiu 1.700 toneladas, acima da capacidade projetada. A taxa de autossuficiência de celulose da unidade alcançou 100%.


NOVO INVESTIMENTO EM SHANDONG: 80% DE AUTOSSUFICIÊNCIA COMO META

O investimento mais recente é a construção de uma nova linha de celulose mecânica em Shandong, sede histórica da empresa. O objetivo é resolver um desequilíbrio estrutural da região: muita capacidade de papel, pouca celulose própria. Com startup previsto para setembro de 2026, a autossuficiência global da Sun Paper em celulose deverá alcançar 80% do total consumido.


LAOS: A CADEIA FLORESTAL COMEÇA FORA DA CHINA

Um detalhe estratégico que merece atenção: a Sun Paper já opera florestas no Laos. A empresa trabalha com sinergia regional entre suas três bases em Shandong, Guangxi e Laos. Isso representa o início de uma integração florestal que reduz gradualmente a dependência de chips de madeira importados de países como Brasil, Chile e Indonésia.


DISSOLVING PULP E BIOMATERIAIS: A DIVERSIFICAÇÃO ALÉM DO PAPEL

Um movimento estratégico central na apresentação de Li Zhi é a diversificação da Sun Paper para além do papel tradicional. A empresa já está produzindo dissolving pulp para uso têxtil, fibra para viscose e lyocell, em diferentes graus de pureza, e busca agora dominar a produção de grau mais alto, de maior valor agregado.


Além da dissolving pulp, a empresa avança em bioquímicos: extraiu celulose do licor de hidrólise e produziu lignina de alta qualidade do licor negro, dois produtos que já alcançaram escala industrial inicial. Li Zhi foi enfático: os biomateriais serão parte essencial da estratégia de longo prazo da empresa.


A Hawkins Wright confirma esse movimento no plano macro: parte do crescimento recente na demanda chinesa por BHKP foi puxada pelo setor de viscose, não pela indústria de papel convencional. Isso cria uma linha de demanda estrutural que cresce independentemente do ciclo do papel, relevante para qualquer produtor de fibra curta, incluindo os brasileiros.


A VARIÁVEL CENTRAL: O CUSTO DA MADEIRA NA ÁSIA

Tanto Wright quanto os dados implícitos na apresentação da Sun Paper apontam para um ponto fundamental: o custo e a disponibilidade de madeira para as fábricas integradas chinesas é a variável que determinará o equilíbrio do mercado nos próximos anos.


Wright foi direto: ninguém previu que a China conseguiria acessar tanta madeira domesticamente e a preços tão baixos nos últimos cinco anos. Esse foi o fator que viabilizou a expansão além do que o mercado esperava. Mas agora as tendências estão se invertendo: eventos climáticos extremos afetaram plantações em várias regiões, e a revogação de licenças de plantio na Indonésia, cobrindo até 1 milhão de hectares, pressiona os mercados de chips que abastecem fábricas no Vietnã e na China.


Quanto mais caro ficar a madeira na Ásia, mais competitiva se torna a celulose produzida no Brasil. E as empresas chinesas não têm plantações próprias em escala comparável às sul-americanas — essa limitação é estrutural.


“A questão central é o custo da madeira na Ásia. As empresas chinesas não têm plantações próprias como as sul-americanas. Esse mercado é muito fragmentado e vulnerável. Essa variável determinará a competitividade relativa entre os produtores nos próximos dez anos”, acrescentou Tom Wright.


O MERCADO QUE OS MODELOS TRADICIONAIS JÁ NÃO CONSEGUEM ANALISAR

Um alerta importante que Wright trouxe ao evento diz respeito à crescente dificuldade de analisar o mercado chinês com as ferramentas tradicionais. A Hawkins Wright está ativamente repensando seus métodos analíticos para lidar com essa realidade.


O problema é estrutural: existe hoje na China uma quantidade expressiva de capacidade de celulose, possivelmente 35 milhões de toneladas ou mais, praticamente impossível de classificar pelos métodos convencionais. Essa capacidade alterna entre matérias-primas diferentes, produz tipos variados de celulose conforme o mercado, vende parte da produção como celulose de mercado e parte consume internamente. Os limites entre mercado integrado e mercado aberto estão cada vez mais borrados.


O próprio Li Zhi demonstrou isso na prática ao descrever a Sun Paper: a empresa pode usar fibra longa ou curta no mesmo produto, pode alternar entre tipos de celulose, pode converter uma máquina de papel entre produtos. É exatamente essa flexibilidade que torna o mercado chinês opaco para análise externa. Para produtores e traders internacionais, isso representa um desafio crescente de gestão de risco comercial: as previsões tornaram-se menos confiáveis justamente no maior mercado do mundo.


O QUE ISSO SIGNIFICA PARA O BRASIL: ESTRUTURAL, NÃO CONJUNTURAL

Com todo esse cenário mapeado, qual é a posição do Brasil e dos demais produtores de celulose de mercado?


A resposta de Wright foi clara: a limitação florestal da China é estrutural. O país não tem terra e clima adequados para expandir plantações de eucalipto em escala comparável ao Brasil, Chile ou Uruguai. Mesmo com toda a capacidade instalada que os grandes grupos estão construindo, a China continuará precisando de fibra externa.


A dinâmica de importações mudou, crescem menos do que antes, mas não desapareceu. O Brasil permanece como o fornecedor mais competitivo de BHKP do mundo. E projetos como o Sucuriú, da Arauco, com 3,5 milhões de toneladas por ano previstos para 2027, reforçam essa posição estrutural.


O que muda é a natureza da relação comercial. A China comprará fibra brasileira não apenas para papel de imprensa ou tissue simples, mas para alimentar indústrias têxteis, para dissolving pulp de alto grau, para produtos que combinam diferentes fibras em maior valor. O mix de compradores e finalidades está ficando mais complexo, e os produtores brasileiros precisam estar preparados para navegar nessa complexidade.


Fonte: Portal Celulose

 
 
 

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