Indústria de celulose aposta em inovação e diversificação para sustentar competitividade global
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Setor avança em tecnologias como aproveitamento da lignina, captura de carbono e novos produtos para reduzir dependência da commodity.
28/04/2026 - Em meio às discussões sobre preços, oferta e demanda, a indústria de celulose mantém em paralelo uma agenda estratégica voltada à ampliação de sua competitividade. O foco está tanto na criação de novas fontes de receita quanto na conversão da matéria-prima em produtos de maior valor agregado.
“Tradicionalmente, o aumento de valor vem do aumento da produção, que reduz o custo operacional por unidade”, afirma Sami Riekkola, vice-presidente executivo de celulose, energia e circularidade da Valmet, em entrevista.
Essa lógica se reflete nos investimentos recentes no Brasil, que se consolidou como principal polo global do setor, impulsionado pela disponibilidade de terras e alta produtividade florestal. Em 2024, a Suzano inaugurou o Projeto Cerrado, em Ribas do Rio Pardo (MS), com capacidade de 2,55 milhões de toneladas anuais, atualmente a maior do mundo para celulose branqueada de eucalipto. A liderança, no entanto, deve ser superada pela nova fábrica da chilena Arauco, em construção em Inocência (MS). Batizada de Sucuriú, a unidade terá capacidade de 3,5 milhões de toneladas por ano, com início de operações previsto para o segundo semestre de 2027.
Apesar do ganho de escala, o setor busca alternativas adicionais de geração de valor. “Mas esse valor também pode vir de um melhor aproveitamento da matéria-prima”, provoca Riekkola.
Entre as principais oportunidades está a lignina, subproduto gerado no processo de produção de celulose. Tradicionalmente utilizada para geração de bioenergia, a substância pode ganhar aplicações mais nobres. A Valmet desenvolveu o processo LignoBoost, que permite extrair e transformar a lignina em um produto comercializável, com potencial uso em bioplásticos, asfalto, dispersantes industriais e materiais para baterias.
Um dos principais entraves históricos, o odor característico do processo, vem sendo enfrentado por meio de tecnologias de desodorização desenvolvidas em parceria com o instituto sueco RISE. Uma planta piloto já opera na Suécia, enquanto uma unidade pré-comercial, com capacidade entre uma e seis toneladas diárias, está em funcionamento na Alemanha. Além de ampliar o portfólio de produtos, a extração da lignina também libera capacidade nas caldeiras de recuperação, permitindo aumento da produção sem necessidade de novos equipamentos.
Outro eixo de inovação é a captura de dióxido de carbono, o CO2. Segundo estudo do RISE, mais de 50% do carbono que entra na indústria florestal sueca, incluindo madeira serrada, celulose e papel, é emitido como CO2 sem se transformar em produto.
Por se tratar majoritariamente de carbono de origem biogênica, capturado durante o crescimento das árvores, esse CO2 pode seguir dois caminhos. O primeiro é o sequestro geológico, que viabiliza a geração de créditos de carbono ao remover emissões da atmosfera. O segundo envolve sua utilização como insumo industrial na produção de metanol e outros químicos.
No longo prazo, a expectativa é alcançar fábricas com emissões negativas. “Nos últimos 10 a 15 anos o setor reduziu o consumo de água pela metade e substituiu energia fóssil por fontes renováveis. Com avanços em tecnologia, controle, otimização e eletrificação, teremos mais eficiência e melhor desempenho ambiental”, afirma Riekkola.
Nesse contexto, Valmet e Linde Engineering desenvolvem um projeto de pré-tratamento de gases com capacidade estimada de capturar 2 milhões de toneladas de CO2 por ano para um cliente não divulgado. A tecnologia já possui aplicações em escala industrial em outros segmentos, como cimento e petroquímica.
Paralelamente, a empresa finlandesa investe no BioTrac, um processo de pré-tratamento da biomassa que separa seus principais componentes, celulose, lignina e hemicelulose, permitindo múltiplas aplicações. O sistema é adaptável a diferentes matérias-primas, como resíduos agrícolas e industriais.
Entre os produtos possíveis estão etanol de segunda geração, pellets com maior poder calorífico, cerca de 30% superior ao convencional, biogás, biometano, combustível sustentável de aviação e químicos verdes.
Apesar do potencial, a escalabilidade dessas soluções ainda enfrenta desafios relevantes. A sueca SCA, por exemplo, estuda há cinco anos a construção de uma fábrica de biocombustíveis ao lado de sua unidade de Östrand, mas esbarra em limitações tecnológicas e altos custos de investimento.
Além disso, a instabilidade regulatória é apontada como um obstáculo. “As normas precisam ser mais firmes e estáveis. Precisamos saber quais serão as regras pelos próximos 10 ou 20 anos”, afirma Håkan Wänglund, diretor de tecnologia e desenvolvimento da SCA Östrand.
Enquanto novas tecnologias amadurecem, a diversificação de portfólio segue como estratégia consolidada no setor. A conversão da celulose em produtos de maior valor agregado, como embalagens, papéis sanitários, fraldas, absorventes e tecidos, reduz a exposição à volatilidade da commodity e melhora a rentabilidade.
A Klabin é um exemplo dessa abordagem, com atuação equilibrada entre celulose de mercado, tanto de fibra curta quanto de fibra longa, papéis e embalagens. “O foco nesses produtos especiais continua sendo um posicionamento importante para a companhia e que o mercado vê com diferenciação”, afirma Ricardo Cardoso, diretor industrial da empresa.
O movimento ganha ainda mais relevância diante das mudanças no principal mercado global. A China, responsável por 43% da demanda mundial por celulose, vem ampliando sua produção interna desde a crise imobiliária de 2021, reduzindo o ritmo de importações.
De acordo com a consultoria Hawkins Wright, a capacidade produtiva chinesa cresceu 10,5 milhões de toneladas nos últimos cinco anos. Enquanto entre 2010 e 2020 as importações avançavam cerca de 1,5 milhão de toneladas por ano, desde então esse ritmo caiu para aproximadamente 500 mil toneladas anuais.
“Tem uma transição acontecendo que precisa ser melhor entendida”, diz Cardoso. “Desde já precisamos nos adequar a essas mudanças futuras”, complementa o executivo.
Fonte: Portal Celulose




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