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RRISCOS
DA DESINDUSTRIALIZAÇÃO
NO BRASIL
Devido à crise de 2008 e 2009, as taxas de crescimento projetadas
para este ano podem mascarar transformações estruturais
que estão acontecendo na economia, e podem estar prejudicando
alguns setores em específico. Esta é a situação
que se apresenta para a indústria brasileira. A indústria
brasileira e mineira deve registrar neste ano taxa de crescimento
superior a 10%, com o setor sendo o carro-chefe do crescimento do
País em 2010.
Mas o fato é que mesmo considerando dados de curto prazo o
quadro atual pode ser considerado, no mínimo, atípico.
Numa economia que vem crescendo a taxas em níveis dos mais
elevados do mundo, nota-se a indústria nacional, trimestre
a trimestre, mês a mês, apresentar graduais reduções
nos seus níveis de produção.
Enquanto o mercado interno consumidor vem apresentando crescimento
pujante, puxado pelo emprego, massa salarial crescente e crédito
ao consumo farto, a indústria dá sinais de esgotamento
do seu crescimento.

Parece então que o país está diante de um paradoxo
delicado: por um lado, a situação presente da economia
brasileira é tão positiva que ela é capaz de
manter os níveis de confiança da população
e mesmo do empresariado em níveis elevados e, por conseguinte,
gerar os estímulos ao consumo e ao investimento. Por outro
lado, há um quadro monetário, fiscal e cambial no País,
pouco perceptível aos olhos da população, como
um todo que impede que aos poucos os benefícios deste quadro
de economia forte sejam espraiados para todos os setores, em especial
para alguns subsetores da indústria.
Ou seja, a questão é muito delicada, porque enquanto
o crescimento econômico doméstico continuar elevado,
a indústria de uma forma geral também crescerá
bem e os críticos da tese da desindustrialização
sempre poderão dizer que os dados não a confirmam. No
entanto, a linha definidora da desindustrialização não
reside no maior ou no menor crescimento industrial de curto prazo
Para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio
Exterior em recente documento, ainda não divulgado em sua íntegra,
o país vive um preocupante processo de desindustrialização
que pode ameaçar as contas externas.
Enquanto o Brasil exporta cada vez mais commodities (minério
de ferro, soja, etc.), o comércio de produtos manufaturados
segue tendência inversa. Este seguimento passou de um superávit
em favor do País de US$ 4 bilhões em 1992, para um déficit
de US$ 9,8 bilhões em 2007 - valor que subiu para US$ 30,5
bilhões só no primeiro semestre de 2010. O ministério
prevê um "déficit histórico", até
o fim do ano.
Muitos analistas querem identificar uma causa determinante desse processo.
Em geral, aponta-se o baixo investimento da indústria brasileira
em P&D e inovação como um fator determinante para
a gradual perda de mercado da indústria nacional. Outros apontam
o câmbio como a variável mais importante neste quadro,
já que a valorização de nossa moeda retira competitividade
da indústria de transformação.
Mas se há uma causa real, acima de todas as outras, para um
processo contínuo de desindustrialização no Brasil,
essa causa pode ser sintetizada na falta de políticas públicas
estáveis e coerentes que sejam indutoras de fato do fortalecimento
da indústria nacional. O governo brasileiro avançou
nas suas políticas de estímulo e fortalecimento da indústria
nacional, com, por exemplo, a instituição da PDP - Política
de Desenvolvimento da Produção. Mas, deve-se enfatizar
que os avanços no campo sistêmico são muito lentos
e incertos.
Temos uma elevada e burocrática carga tributária e trabalhista
que impera sobre o País, onerando a produção
nacional, inclusive as exportações. Possuímos
uma das maiores taxas de juros do mundo há pelo menos 20 anos,
dentro de um sistema financeiro que não opera no crédito
de longo prazo, uma infraestrutura deteriorada e de baixíssima
eficiência logística e um aparato jurídico e regulatório
que desestimula decisões de investimento e parcerias público-privadas.
E num quadro desses, o governo insiste em manter uma política
fiscal expansionista que impede a redução dos juros
no país e, em última instância, reflete-se na
valorização cambial.
Pensando no curto prazo, entretanto, há a necessidade de se
implementar medidas urgentes para conter a valorização
cambial, dentro de um contexto claro de "guerra cambial",
e coordenar novas políticas para dar maior competitividade
à indústria nacional e às exportações
brasileiras, num contexto de crescimento da adoção de
políticas comerciais protecionistas por vários países
no mundo.
Na área cambial, três propostas podem ser pensadas como
medidas compensatórias para controlar a valorização
do Real:
- Aprofundar a política de tributação nas aplicações
financeiras de renda fixa e variável para investidores estrangeiros
(IOF), mas adotar um regime de escalonamento nas alíquotas,
conforme o prazo de permanência dos recursos no País.
- Retornar com a incidência de IR sobre entradas de recursos
especulativos, conforme o prazo das aplicações financeiras,
aproximando as condições de tributação
entre o aplicador brasileiro e o estrangeiro.
- Promover um aperto significativo na política fiscal brasileira,
no que for politicamente viável, com vistas a elevar a meta
de superávit primário para além dos 3,3% do PIB
e conduzir o País para um processo de redução
dos gastos públicos e elevação da poupança
pública. O reflexo dessa política seria uma gradual
redução da demanda, menor dependência de poupança
externa, permitindo a queda mais acentuada e rápida dos juros
e a redução no diferencial de juros entre o Brasil e
o resto do mundo.
No campo da competitividade à indústria nacional, seja
no mercado interno ou externo, sugere-se as seguintes propostas de
aplicação no curto ou médio prazo:
- Desoneração tributária (ampliação
do draw-back verde amarelo) e trabalhista à exportação
em toda a cadeia produtiva do produto exportado;
- Simplificação e ampliação na recuperação
de créditos acumulados de exportação, inclusive
com a permissão para sua transferência a terceiros ou
compensação com outros débitos tributários;
- Desburocratização completa de todos os processos de
exportação, inclusive em relação aos custos
portuários e alfandegários;
- Mais e melhores linhas de crédito para a atividade exportadora;
- Novas linhas do BNDES para a importação de máquinas
e equipamentos sem similar nacional, como ação indutora
da modernização e incremento na produtividade do parque
produtivo nacional. O diferencial proposto nessa linha é que
a empresa tenha a opção do crédito ser contratado
baseado integralmente em Reais ou cesta de moedas.
- Maior atuação do BNDES para fiscalizar e restringir
o credenciamento ou renovação no cadastramento na FINAME
de produtos sem índice de nacionalização mínimo
(60%).
- Desoneração total dos investimentos, inclusive com
a imediata e automática recuperação de créditos
fiscais.
- Atuação mais ativa do governo contra práticas
de contrabando e descaminhos.
- Nova visão e postura nas regras de comercio internacional:
políticas deliberadas de desvalorização de moedas
podem ser retalhadas com a criação de barreiras tributarias,
técnicas, ambientais e comerciais.
- Estímulo à internacionalização de empresas
nacionais.
É importante frisar que vários estudos econômicos
são claros ao mostrar que existe uma forte correlação
entre alto crescimento econômico e crescimento elevado da indústria
de transformação. Como um estudo do IEDI que mostra
que entre o 1997 e 2010, o crescimento trimestral da indústria
foi maior que o do PIB total na maioria dos casos.
Ou seja, promover o alto crescimento para a economia brasileira requer
um processo de crescimento ainda maior da indústria de transformação.
E maior crescimento econômico está associado a mais empregos,
mais renda e melhoria na qualidade de vida para o Brasil. Em última
instância, esta é a grande importância da indústria
nacional para o país.
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