Cenibra: inversão de US$ 2 bi ameaçada

Limite para compra de terras por empresas estrangeiras impede a implantação da terceira linha.

LÍDIA REZENDE.

07/02/2012 - A determinação legal que limita a aquisição de terras por empresas controladas por estrangeiros no Brasil tem impedido a realização de investimentos da ordem de US$ 2 bilhões em Minas Gerais. De acordo com o presidente da Celulose Nipo-Brasileira (Cenibra), Paulo Eduardo Rocha Brant, a empresa não retomará o projeto para a implantação da terceira linha de produção em Belo Oriente, no Vale do Aço, enquanto não for feita a revisão do parecer da Advocacia-Geral da União (AGU), expedido em agosto de 2010, com o objetivo de prevenir a entrada de capital especulativo.

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Presidente da empresa diz que, após queda de 20%
no preço da celulose, tendência é de aumento neste ano

"A restrição da legislação é uma questão eliminatória e urgente. Ela gera tantas dificuldades que praticamente inviabiliza a expansão. Imagine se sempre que precisarmos comprar fazendas tivermos de pedir autorização para o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Imagine como seria demorado e burocrático o processo para comprar 200 mil hectares de terra. Se o governo não alterar a legislação neste ano, o investimento não sai, mesmo se o cenário melhorar. Os japoneses são muito organizados e exigentes. Enquanto esta questão não for resolvida, não se discute o próximo passo", pontua Brant.

Ele revela ainda que já recorreu até mesmo ao ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, na tentativa de viabilizar uma resolução para o impasse judicial. "O ministro concorda com os argumentos, ele sabe da situação da Cenibra e que esta exigência impedirá o desenvolvimento do setor produtivo. Acredito que o governo está buscando a solução mais politicamente adequada, já que o tema cria uma série de constrangimentos políticos". Mesmo assim, Brant não acredita que deve haver alguma decisão antes do fim deste ano.

Conforme ele, uma das justificativas apresentadas a Pimentel diz respeito à concorrência com outros países no que se refere à atração de aportes. "O Brasil tem muitos atrativos, mas não é o único no mundo. Se o cenário aqui ficar complicado demais, outros países entram na disputa, como é o caso da Malásia, Tailândia e Vietnã. Temos uma boa localização, mas também contamos com um ônus que poucos têm, que é a tributação sobre o investimento, que no setor de celulose chega a 17%", enfatiza.

Fuga - Diante desta conjuntura, o presidente da empresa não descarta a possibilidade de que os projetos para a expansão no Brasil acabem sendo realizados em outros países. "O acionista pode optar por investir em outros lugares. A Cenibra tem uma planta na China, que não produz celulose, mas importa o produto da Malásia", afirma.

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Toda a produção de 2011, que chegou
a 1,2 mi de toneladas, foi vendida

Já uma das opções possíveis para o aumento da produção no Brasil, que é a de aumentar a terceirização da silvicultura, é vista com cautela pelo executivo. "É uma boa alternativa porque proporciona a redução do investimento, uma vez que neste caso não é necessária a compra de terras. Mas terceirizar mais que 25% da produção é arriscado, já que, sem o controle direto da empresa, há o risco de desabastecimento de matéria-prima", explica. Atualmente, a Cenibra terceiriza apenas 7% do total.

O obstáculo jurídico que emperra o crescimento da companhia no Estado fica ainda mais evidente quando analisada a conjuntura de mercado. De acordo com Brant, após a queda de cerca de 20% no valor da celulose comercializada mundialmente, a tendência é de que o preço aumente neste ano.

"A média de 2011 foi de US$ 550 a tonelada. Em 2012, houve reação positiva, a cotação já está em aproximadamente US$ 580 e deve continuar subindo ligeiramente, já que não está previsto aumento significativo da produção mundial e os estoques estão baixando. A situação é especialmente favorável ao Brasil, porque, como as condições aqui são melhores para o desenvolvimento da silvicultura, o custo de produção é mais baixo que em outros países. Desta forma, as empresas no país ainda conseguem rentabilidade mesmo com a tonelada do produto sendo negociada a US$ 550. Já companhias em outros lugares não aguentam porque as despesas para produzir superam o valor da mercadoria. Então, as perspectivas da Cenibra são tranqüilas para este ano", esclarece o presidente.


Produção - Segundo Brant, toda a produção do ano passado, que chegou a 1,2 milhão de toneladas, foi comercializada. Em exportações, foram 1,150 milhão de toneladas, o que representa o máximo da capacidade nominal da planta mineira.

"Em termos de volume, a quantidade vendida no ano passado foi 100%, o mesmo de 2010 e neste ano o resultado deve se repetir, já que não conseguimos executar nosso plano de expansão. Fizemos algumas ações para otimizar o funcionamento da indústria, o que já nos permitiu produzir mais que o previsto pela infraestrutura da planta e não temos como aumentar as atividades ainda mais. A fábrica funciona nos 365 dias por ano, 24 horas por dia", ressalta.

Com tanta demanda, a Cenibra sequer se preocupa com a entrada de outro concorrente no mercado nacional. A Eldorado Celulose e Papel, formada por meio de uma parceria do grupo frigorífico JBS com o investidor Mário Celso Lopes, deve inaugurar no próximo ano sua primeira unidade, que será localizada em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul. O empreendimento, no qual estão sendo investidos R$ 4,8 bilhões, deve produzir 1,5 milhão de toneladas de celulose por ano já durante o início das atividades. "A demanda mundial por celulose de fibra curta cresce em torno de um milhão de toneladas por ano. Então, o mercado absorverá a produção da nova empresa", avalia Brant.

Fonte: Diário do Comércio