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Concentração
de poder abre espaço para corrupção no país
LUCIANE LISBOA.
23/08/2011 - O diretor-presidente da Celulose Nipo-brasileira (Cenibra)
- a terceira maior produtora de celulose do Brasil, cuja planta
fica em Belo Oriente, no Vale do Rio Doce -, Paulo Eduardo Rocha
Brant, tem vasta experiência como gestor na administração
pública. Já foi secretário-adjunto de Secretaria
de Estado da Indústria e Comércio, titular da pasta
estadual de Cultura, diretor do extinto Bemge e do BDMG, além
de ter presidido o Instituto Brasileiro de Planejamento e atuado
no Ministério de Desenvolvimento Econômico (MDE) durante
o governo Fernando Henrique Cardoso. Talvez, por isso, discorra
tão bem e com tanta facilidade sobre temas relacionados ao
cenário atual econômico brasileiro.
ALISSON J. SILVA

Crítico
do que chama de "federalismo exagerado", Brant considera
um absurdo o Brasil, "um país enorme, com tamanha heterogeneidade",
ter um governo quase que unitário. Para o executivo, é
preciso delegar mais funções a estados, municípios
e à iniciativa privada, já que "tem certas coisas
que a União não consegue fazer, mesmo que as pessoas
queiram e tenham boa vontade para isso". Segundo Brant, a concentração
de poder só abre espaço para uma coisa: a corrupção.
Mineiro
de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, Paulo Brant é formado
em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
e é mestre em Economia pela Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Divorciado e pai de
quatro filhos, é irmão do ex-deputado federal Roberto
Brant e do compositor Fernando Brant, um dos fundadores do Clube
da Esquina.
A Cenibra está completando 38 anos no mercado brasileiro.
Qual é o balanço que o senhor faz da companhia?
Estou
há apenas um ano e quatro meses no cargo, mas posso dizer
que a trajetória da Cenibra ao longo dos seus 38 anos de
história é de muito sucesso. A empresa surgiu praticamente
junto com a Aracruz, no Espírito Santo, e foram os dois primeiros
projetos de celulose de eucalipto (fibra curta) no Brasil. Até
então, a fabricação de celulose era feita a
partir de outras espécies de madeira, como o pinus (fibra
longa). Foi um projeto de parceria do governo brasileiro, por meio
da Vale do Rio Doce (Vale), que na época era estatal; de
um grupo de empresas japonesas (JBP); além do próprio
governo japonês. A Cenibra, que no início produzia
algo em torno de 200 mil toneladas/ano, hoje produz 1,2 milhão
e tem projetos de expandir para 2 milhões/toneladas ano.
? uma empresa que, além de rentável, tem muito cuidado
com o meio ambiente e também é exemplar do ponto de
vista social, no relacionamento e comprometimento com o desenvolvimento
das comunidades vizinhas à fábrica.
O
projeto da nova linha de produção em Belo Oriente,
que estava previsto para sair do papel neste ano, deve mesmo ser
adiado?
É provável que neste ano não saia. É
difícil, mas uma vez aprovado pelos acionistas, é
necessário um tempo para elaboração do projeto
executivo e para o início do plantio. Hoje a Cenibra tem
uma folga de madeira que permite ampliar a produção
em 200 mil toneladas. Mas para chegar a 1 milhão de toneladas
é preciso plantar muito mais. E o tempo de maturação
do eucalipto é de sete anos. Então, definido o projeto,
o mais importante é começar rapidamente a plantar.
A próxima reunião do Conselho de Administração
da empresa é em setembro, mas é improvável
que o investimento seja aprovado agora. O mais certo é que
isso ocorra no final do ano.
A
crise nos EUA e Europa assusta?
Preocupa, claro. Essa perspectiva de crise muda o humor dos investidores.
As pessoas ficam menos otimistas. Mas é claro que ninguém
vai definir um investimento de R$ 2 bilhões baseando-se apenas
na conjuntura econômica do momento. São aportes de
longo prazo e, até agora, as perspectivas para o Brasil nos
próximos anos é boa em relação ao mercado
de celulose. O problema maior dessa crise nos EUA e Europa é
que se trata mais de uma questão política do que econômica.
Ela (crise) está demorando demais para ser equacionada por
falta de liderança política na Europa e em função
do impasse entre republicanos e democratas nos Estados Unidos. A
política não é lugar disso, é local
de consenso. A inércia do governo Obama se dá pela
dificuldade política que ele enfrenta no Congresso.
Vocês
estão preocupados com a China e o Japão?
Nossos mercados são pulverizados. A China e o Japão
são grandes compradores, 20% das vendas da Cenibra vão
para os chineses e outros 20% para os japoneses. Mas a Europa também
é grande consumidora de celulose, e fica com 40% das vendas.
Então, à medida que a Europa e os Estados Unidos entram
em crise, é muito preocupante. A crise já está
se alastrando e apesar de a Ásia ser um grande mercado, não
é o único.
Qual
o faturamento previsto da empresa este ano? Vai haver crescimento?
Todos esses problemas externos vão impactar o resultado da
Cenibra neste ano. O faturamento vai cair, apesar de o preço
da celulose estar bom. O nosso problema maior hoje é o câmbio.
Não só a Cenibra, mas a maioria das empresas de celulose
no Brasil que exportam a maior parte da produção sofre
com os custos altos. A receita é em dólar, e no caso
da Cenibra, 90% do custo de produção são em
reais. Toda vez que a taxa de câmbio se valoriza, os custos
aumentam e as margens vão sendo estreitadas. E o governo
não está conseguindo tomar medidas efetivas para conter
a queda do dólar. Neste ano a receita vai cair. No ano passado
faturamos R$ 1,4 bilhão mas, neste ano, certamente o faturamento
será menor, não deve passar de R$ 1,2 bilhão.
A
Cenibra é a terceira maior produtora de celulose do Brasil.
Dá para chegar ao topo?
A curto prazo, não. Mas essa expansão que estamos
avaliando vai possibilitar que ultrapassemos a segunda colocada,
que é a Suzano.
E
quanto à questão da pendenga judicial trabalhista
que a Cenibra enfrenta?
Existe um questionamento do Ministério Público do
Trabalho (MPT) em relação às empresas terceirizadas
que são contratadas para realizar o plantio e a colheita
do eucalipto. O MPT quer que os trabalhadores passem a ser contratados
diretamente pela Cenibra. Nós estamos avaliando qual a melhor
alternativa, mas considero um absurdo quererem obrigar a companhia
a fazer isso. ? só no Brasil que esse tipo de questionamento
acontece. Quando uma empresa é contratada para prestar um
serviço, o que o contratante tem que exigir é que
essa empresa cumpra a lei, ou seja, pague os encargos sociais, assine
a carteira dos trabalhadores, dê segurança a eles,
assistência à saúde, etc. Mas se vamos contratar
uma empresa terceirizada ou se vamos fazer isso diretamente é
uma escolha nossa. O governo não pode interferir nisso, ele
tem que exigir sim que a lei seja cumprida. Por que eu não
posso contratar uma empresa para me prestar um serviço que
considero que ela faça melhor do que eu?
Como
o senhor avalia o atual cenário econômico?
A situação econômica atual é preocupante.
Mas, no curto prazo, o governo não tem muito o que fazer.
Ele vem intervindo da maneira que pode, com compensações
em alguns setores. Acho que a Dilma é uma pessoa de bem,
torço por ela e acredito que têm pessoas bens intencionadas
no governo dela, como o ministro Fernando Pimentel. Mas uma coisa
é ela querer fazer, outra é ela criar uma capacidade
política para conseguir fazer. O que está parecendo
é que o governo não vai mexer em nada fundamental.
O Brasil precisa "engatar a primeira marcha" e realizar
mudanças profundas.
O
que o senhor quer dizer com "mudanças profundas"?
A Dilma herdou problemas graves que vêm de governos anteriores.
A União carrega nos ombros tarefas que não tem competência
para realizar. Mas são dois os problemas mais sérios:
primeiro, existe uma concentração absurda de recursos
nas mãos do governo federal. Hoje os estados e municípios
cada vez mais perdem receita. Não é racional que a
decisão sobre a construção de um conjunto habitacional
em uma cidade do interior de Minas Gerais seja definida em Brasília.
Já trabalhei na capital federal e sei que o governo não
tem a menor competência para definir onde deve ser construído
isso ou aquilo. Essas decisões não têm que ficar
no orçamento da União. Essa coisa de federalismo é
um absurdo.
O
senhor acredita que essa concentração de poder também
pode favorecer possíveis "desvios" de conduta?
? claro. Primeiro porque fica difícil para o governo, mesmo
querendo, administrar com eficiência um país com um
território tão grande como o Brasil. Então,
a concentração de poder abre espaço para a
corrupção, para a venda de favores. Porque os prefeitos
são obrigados a ir em Brasília negociar com os burocratas
dos ministérios para conseguir viabilizar obras. Isso favorece
a corrupção. O governo tinha que fazer uma reforma
tributária e fiscal descentralizando essas estruturas.
Mas
o senhor falou que são dois problemas graves que precisam
ser sanados. Qual o segundo?
Está exatamente na necessidade de o governo perder um pouco
esse "pudor" que ele tem em transferir para a iniciativa
privada investimentos que ele não tem competência para
fazer. Porque ao invés de fazer mal feito, o governo não
passa a fiscalizar de forma efetiva quem tem mais capacidade de
fazer? Eu passei recentemente uma semana na China e fiquei envergonhado
ao perceber a diferença que existe entre a infraestrutura
de lá em relação com a daqui. Não dá
para comparar as estradas e aeroportos chineses com os do Brasil.
Mesmo a China sendo comunista, suas rodovias são privatizadas
e cobram pedágio. A BR-381 que atende à Cenibra, a
Usiminas e outras empresas do Vale do Aço e Rio Doce, é
um bom exemplo. ? um absurdo a situação que ela se
encontra. A estrada tem um tráfego enorme que inviabiliza
qualquer investimento privado. Basta o governo querer. Mas por que
ela não é privatizada logo então? O Dnit (Departamento
Nacional de Infraestrutura de Transportes) insiste em fazer a obra.
E o que vai acontecer? Todo mundo sabe que a obra vai custar muito
mais e vai demorar o triplo do tempo para ficar pronta. Mas a gente
sabe também que a presidente da República não
consegue fazer nada sozinha.
Qual
a alternativa então?
Quero ressaltar que o setor público brasileiro no geral melhorou.
A gente vê que tem pessoas sérias trabalhando, como
no governo de Minas, de Pernambuco, São Paulo e no próprio
Rio de Janeiro. Não sou político mas, na minha opinião,
a Dilma precisa criar alternativas de governabilidade se aliando
a gente séria. Ela pode fazer alianças - o que é
normal e necessário na política -, mas tem que ser
com pessoas que trabalham e são honestas. Porque sem isso,
ela fica no varejo, não consegue governar. A Betânia
Tanure, que era da Fundação Dom Cabral, criou uma
expressão que é ótima: subdesempenho satisfatório.
No Brasil é assim, poderíamos estar crescendo a 8%
ao ano, mas isso não acontece porque o subdesempenho aqui
é satisfatório.
Então
o senhor acha que as medidas do governo federal para regular a economia
e conter a desindustrialização são apenas paliativas?
São claramente paliativas. Nós não temos infraestrutura
e sem ela é impossível ampliar crescimento do país.
O governo cobra 35% de impostos que, somados ao déficit que
ele (governo) tem, chegam a 40% de todo o PIB. Na China, o governo
também faz isso, mas investe tudo em infraestrutura. Aqui,
desses 40% que o governo tira do PIB, só 1,5% a 2% são
revertidos em investimentos. Por isso, nossa infraestrutura é
um lixo. Basta olhar o caos constante nos aeroportos. E todo mundo
sabe que as reformas para a Copa do Mundo não serão
suficientes para sanar o problema. Além disso, as taxas de
juros a 12% ao ano só são justificáveis porque
o governo gasta muito e gasta mal. Nossa economia, com 4% de crescimento
anual, está igual ao motor de um carro que roda muito e começa
a esquentar. Se você acelerar mais, ele vai fundir. Sem infraestrutura
é impossível aumentar nossa taxa de crescimento.
Para
as empresas exportadoras, como a Cenibra, o dólar baixo é
muito prejudicial. Como reverter isso?
Mais de 90% do que a Cenibra produz vai para o mercado externo.
Para nós, o dólar desvalorizado é péssimo.
Mas uma solução, mesmo que tomada agora, só
será percebida no longo prazo. Qualquer mudança mais
profunda exige maior governabilidade e não é o que
estamos percebendo no governo atual. E não dá para
tabelar câmbio. A alternativa menos agressiva é o governo
tentar diferenciar um pouco os capitais que entram no país.
Não são medidas radicais, o Chile fez isso. ? claro
que todo capital é bem-vindo ao Brasil, mas é preciso
estabelecer um tempo mínimo para que o dinheiro permaneça
no país. Estipular seis meses para fundos de renda fixa e
90 dias para aplicações em bolsa, por exemplo, pode
ser uma forma de minimizar esse grande afluxo de capitais que entram
no país. No momento, o Brasil está apenas tentando
baixar a febre, mas a infecção continua forte.
Fonte:
Jornal Diário do Comércio - matéria publicada
no dia 20/08/2011
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