"BC agrava situação do setor produtivo com elevação dos juros", diz Olavo Machado Jr.

10/06/2011 - O presidente da Fiemg, Olavo Machado Jr., divulgou nota em que criticou a decisão do Copom de elevar a taxa de juros. "A inflação está em desaceleração, um indício da falta de necessidade de elevação dos juros neste momento", afirmou. O dirigente reiterou que, se o governo precisa reduzir consumo via crédito, deveria criar taxa diferenciada para quem produz. Ele apontou sinais de que a economia do país está em desaquecimento, como a queda na produção física, que vem ocorrendo desde outubro do ano passado. Leia íntegra da nota:

NOTA À IMPRENSA
REUNIÃO DO COPOM (BANCO CENTRAL DO BRASIL)

08 de junho de 2011

"O Banco Central do Brasil parece ignorar a queda de praticamente todos os índices que medem a inflação e os indicadores de redução das atividades econômicas. Ao elevar mais uma vez os juros, agrava a situação do setor produtivo e contribui para tornar o real mais forte frente ao dólar, tornando mais caros os produtos brasileiros, o que dificulta a exportação e incentiva as importações. Nossa indústria está sendo duramente penalizada. Se deseja reduzir o consumo via crédito, o governo deveria criar taxa diferenciada, uma com juros menores para quem produz e aumenta a geração de bens de forma a ampliar a oferta, e, assim, ajudar no controle à inflação.

Em maio o IPCA fechou em 0,47% bem abaixo do índice de abril. Além disso, para o próximo mês, a expectativa é que o IPCA esteja em 0,06%. Isso mostra que a inflação está em trajetória de desaceleração e se manterá assim nos próximos meses, um indício da falta de necessidade de elevação dos juros neste momento.

Analisando indicadores reais da economia, há muitos sinais de que o País já está numa trajetória de desaquecimento. A produção física de abril em relação a março apresentou um dos piores resultados desde a crise, com queda de 2,1%. A taxa anualizada da produção industrial está caindo desde outubro do ano passado. Estes resultados são muito preocupantes, uma vez que já não se caracteriza como um problema conjuntural ou passageiro, e sim estrutural, devido às injustas condições de competição com o produto importado e a persistente debilidade das economias desenvolvidas. Projeções indicam que a produção física deste ano não passará de 3,0%, motivo de muita preocupação para um país que tem necessidades imensas de investimentos na sua infraestrutura e no aumento da oferta agregada de uma forma geral.

Segundo a Gerência de Economia do Sistema FIEMG, as medidas macroprudenciais tomadas recentemente estão arrefecendo o crescimento do crédito na economia, como se pode ver nos primeiros meses do ano. Além disso, a expectativa é que haja uma acomodação do crédito não só à pessoa física como também à pessoa jurídica nos próximos meses.

A taxa de desemprego está relativamente estabilizada, e não há expectativa de que o seu nível cairá ainda mais, o que poderia pressionar a inflação. Nos últimos meses é possível notar uma clara perda de ritmo da ocupação além de uma retração maior do rendimento médio real em abril (-1,8%), indicando, inclusive, retração no rendimento nominal.

O índice de confiança do consumidor registra queda desde março, mostra esfriamento da economia, na ótica do consumo, variável de grande importância na determinação da SELIC para o BACEN. Já com relação ao empresariado, o índice de confiança já acumula cinco meses de queda que, por outro lado, sinaliza pessimismo com relação a novos projetos de investimento no país, o que piora com juros maiores

Não podemos nos esquecer ainda que um aumento nos juros básicos causará mais pressão por valorização do câmbio, o que será ainda pior para as exportações e para a balança comercial, ou seja, cada vez mais a indústria brasileira é prejudicada por distorções macroeconômicas sem que haja contrapartidas, como a redução da carga tributária ou incentivos fiscais à exportação.

Para não penalizar ainda mais a indústria, é muito importante que o governo estude e avance em programas que possam melhorar as condições gerais do crédito à produção e investimento, diferenciando o crédito do setor produtivo em relação ao ofertado para o consumo. Nessa linha, o governo deve acelerar a regulamentação do cadastro positivo, pois a inadimplência na pessoa jurídica é bem inferior à verificada nas pessoas físicas, e o empresário acaba arcando com parte deste custo. Pode-se pensar também na isenção tributária nos créditos voltados à pessoa jurídica e é importante que o governo incentive mecanismos diversos para o avanço do crédito privado de longo prazo no Brasil e o acesso das empresas aos instrumentos do mercado de capitais."

Olavo Machado Júnior
Presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais

Fonte: site FIEMG