Depois
de duas décadas de debate, Brasil institui Política
Nacional de Resíduos Sólidos
02/08/2010 - Em cerimônia no
Palácio do Itamaraty, o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva sanciona, nesta segunda-feira (2), em Brasília, a
lei que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos.
A
proposta, que tramitava desde 1991 no Congresso Nacional, responsabiliza
os fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes e consumidores
pelo ciclo de vida dos produtos. Com isso, as empresas serão
obrigadas a desenvolver a chamada "logística reversa":
um conjunto de ações para tratar o que resta do produto
após o uso pelo consumidor, seja reutilizando, reciclando
ou descartando os dejetos de forma apropriada. Entre os produtos
estão baterias, pilhas, lâmpadas, eletroeletrônicos
e embalagens em geral.
"A
lei que passou quase vinte anos no Congresso é resultado
de esforço grande num texto que atende ao momento atual no
Brasil. Ela é renovadora e traz alguns princípios
novos e modernos como a responsabilidade compartilhada de toda uma
cadeia produtiva (...). É o primeiro passo, já é
um indicador que a gente evoluiu", comemora Victor Bicca Neto,
presidente da entidade sem fins lucrativos Cempre (Compromisso Empresarial
para Reciclagem).
Outra
importante medida da nova lei é a determinação
para que Estados e municípios acabem com seus lixões.
Em vez deles, os governos municipais e estaduais deverão
construir aterros sanitários, que normalmente, têm
vida útil de 20 a 30 anos.
A
diferença entre lixões e aterros é a gestão,
segundo explica o diretor de Ambiente Urbano da Secretaria Nacional
de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano do MMA (Ministério
do Meio Ambiente), Sérgio Gonçalves. "No lixão,
o lixo é deixado a céu aberto sem cuidados sanitários
necessários. Os resíduos são jogados de qualquer
jeito no ambiente. Já no aterro, há gestão
correta do rejeito. Ele [o aterro] tem normas técnicas, área
escolhida de forma correta, os locais têm de ser impermeabilizados,
tem de haver coleta de gás: ou se queima ou se aproveita.
Se recolhe e trata o chorume [líquido que sai do lixo], e
os rejeitos são compactados e aterrados", detalha.
Um
levantamento do MMA apontou que as cidades brasileiras produzem
cerca de 150 toneladas de lixo por dia. Desse total, 59% são
destinados aos lixões e apenas 13% seguem para os aterros
sanitários. O restante acaba tendo outros fins não
especificados pela pasta. A nova lei pretende incluir o cidadão
como co-responsável pelo que consome e descarta.
Prática
Após a sanção, o primeiro passo para colocar
em prática as novas regras será promover reuniões
com empresas e governos estaduais e municipais. Já estão
em andamento 34 acordos de convênios e cooperações
com o governo federal, em 18 Estados. São eles: Acre, Alagoas,
Bahia, Ceará, Goiás, Mato Grosso, Maranhão,
Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco,
Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rondônia,
Santa Catarina e Sergipe.
A
expectativa do Executivo é que até o fim do ano esses
locais apresentem um mapa da situação de seus depósitos
de lixo e quais locais poderiam servir para a construção
de novos aterros, que receberiam dejetos de vários municípios,
que terão de gerenciá-los em conjunto.
Pelo
PAC 2 (segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento),
o governo federal já destinou R$ 1,5 bilhão para esta
área.
O
que o empresariado já faz
Na área automobilística, uma das mais aquecidas do
país, a Anip (Associação Nacional da Indústria
de Pneumáticos) criou em 2007 a Reciclanip - entidade sem
fins lucrativos que trabalha para dar um fim mais sustentável
aos pneus velhos; são 463 pontos de coleta pelo país.
A Reciclanip coletou 250 mil toneladas de pneus no ano passado.
Um pneu costuma demorar mais de 150 anos para se decompor no meio
ambiente.
Os
fabricantes do setor já investiram mais de US$ 95 milhões
no programa até o ano passado e a previsão de investimento
para este ano é da ordem de US$ 25 milhões, segundo
a entidade.
Fundado
em 1992, o Cempre é outro exemplo de associação
sem fins lucrativos dedicada à promoção da
reciclagem. Ele é mantido por 30 grandes empresas privadas
de diversos setores como Alcoa, AmBev, Beiersdorf/Nivea, Carrefour,
Coca-Cola, Gerdau Klabin, Kraft Foods, Natura, Nestlé, Pepsico
do Brasil, Philips, Procter & Gamble, Sadia, Souza Cruz, Suzano
Papel e Celulose, Tetra Pak, Unilever e Wal-Mart.
Em
maio deste ano, o Cempre fechou um acordo com o MMA para elaborar
um estudo qualitativo sobre o atual cenário da reciclagem
de eletroeletrônicos no país, que contará com
a participação de todos os fabricantes e varejistas
que fazem parte da entidade.
"O
estudo será um primeiro diagnóstico sobre o resíduo
que tem mais crescido. É um mercado complexo, que sofre com
a informalidade, que é muito grande. O desafio é,
num período curto, fazer um diagnóstico de como está
a situação em 10 capitais do Brasil", afirmou
o presidente da Cempre, Victor Bicca Neto, que pretende entregar
o documento até novembro desse ano.
Lucro
no lixo
Um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada),
divulgado em maio, identificou que o país deixa de ganhar
R$ 8 bilhões por ano ao não reciclar todos os resíduos.
De
acordo com a pesquisa, somente 12% dos resíduos sólidos
urbanos e industriais são reciclados e apenas 14% dos brasileiros
são atendidos pela coleta seletiva.
Diante
do diagnóstico, o MMA planeja estratégias para investir
em cooperativas de catadores e aumentar a produtividade do segmento.
No
entanto, em alguns itens, o país fica bem posicionado em
nível mundial, como alumínio: o Brasil é campeão
mundial em reciclagem no segmento de latinhas, conseguindo reaproveitar
97% do que é vendido.
"O
Brasil ainda não olha o lixo como uma potencialidade econômica.
Lixo não é coisa ruim, não. Noventa por cento
do que está ali pode ser reutilizado", afirma Sérgio
Gonçalves.
Fonte:
UOL - SP - NOTÍCIAS - Camila Campanerut
Do UOL Notícias - Em Brasília
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