BC
reduz a dosagem do aperto monetário
22/07/2010 - Brasília - O Banco Central reduziu o ritmo do
aperto na economia. No início da noite de ontem, a instituição
anunciou o aumento do juro básico da economia, a Selic, em
0,50 ponto percentual, para 10,75% ao ano. Nas duas decisões
anteriores, as altas haviam sido de 0,75 ponto. Com o entendimento
de que o cenário inflacionário evoluiu positivamente
desde junho, o Comitê de Política Monetária (Copom)
viu espaço para diminuir a magnitude do aumento de juro. Nas
últimas semanas, diversos indicadores de inflação
e atividade econômica mostraram desaceleração.
A intensidade
do aumento foi menor que nas reuniões anteriores do Copom,
quando a taxa subiu 0,75 ponto percentual por duas vezes. No comunicado
divulgado após a decisão, o BC diz que houve redução
de riscos inflacionários desde a reunião de junho
e que isso se deve a fatores externos e internos.
A alta
menor da taxa básica pode levar a um alívio nos juros
finais ao consumidor, que sobem desde o início do ano. Principalmente
se o Copom decidir encerrar em breve o ciclo de alta da Selic. A
taxa básica começou a subir em abril. Na época,
estava em 8,75% ao ano, menor patamar da história recente.
Os
juros ainda estão abaixo do nível verificado no início
de 2009, quando o BC reduziu a taxa diante da queda na atividade
provocada pela crise iniciada em 2008.
Riscos menores - Em comunicado divulgado após o encontro,
os diretores do BC afirmam que a decisão levou em conta "o
processo de redução de riscos para o cenário
inflacionário que se configura desde a última reunião
do Copom". Essa melhora, segundo o texto, "se deve à
evolução recente de fatores domésticos e externos".
"O comitê entende que a decisão irá contribuir
para intensificar esse processo (de redução de riscos)",
completa o texto distribuído após a decisão
tomada por unanimidade.
Os
argumentos para a redução de ritmo no aperto monetário
vieram à tona nas últimas semanas e especialmente
no cenário doméstico. Indicadores como a inflação
mais baixa que o esperado e a atividade econômica em desaceleração
surpreenderam positivamente o mercado financeiro. Para analistas,
o quadro diminui o risco de descontrole da inflação
e abre espaço para um BC mais moderado.
O próprio
presidente Henrique Meirelles deu sinais de que o ritmo dos juros
poderia mudar. Normalmente avesso à imprensa, especialmente
em dias que antecedem o Copom, ele falou dois dias seguidos com
a imprensa na semana passada para reafirmar que as decisões
são tomadas "levando em conta todos os dados existentes"
até o dia da reunião.
Reviravolta - A evolução positiva dos indicadores
recentes gerou verdadeira reviravolta no mercado de juros futuros.
Há duas semanas, os negócios mostravam que era praticamente
zero a chance de alta da Selic menor que 0,75 ponto. Mas as apostas
começaram a mudar na semana passada. Na última segunda-feira,
foi o primeiro dia em que a maioria das operações
passou a apontar para o aumento de 0,50 ponto. Um dia depois, as
apostas se consolidaram com a deflação registrada
no IPCA-15.
"O
BC viu que o cenário mudou. A decisão foi coerente
com a nova realidade da economia que se desenhou desde a última
reunião. Manter o ritmo anterior de aumento seria fechar
os olhos para essa novidade", disse o economista-chefe do Banco
Schahin, Silvio Campos Neto. Para ele, o texto divulgado abre espaço
para "qualquer aumento de 0,50 ponto para baixo" no próximo
encontro que acontece nos dias 31 de agosto e 1º de setembro.
"é preciso esperar a ata na próxima semana, mas
acredito que o aumento de setembro será o último do
atual ciclo", avaliou.
A inflação
foi o número que abriu os olhos dos analistas para a chance
de uma alta menos intensa da Selic, mais especificamente o Índice
de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) que marcou inflação
zero em junho, abaixo de todas as expectativas. Os preços
seguiram no radar até horas antes da decisão, já
que na quarta-feira o IPCA-15 de julho, uma prévia do índice
até o meio do mês, apontou deflação de
0,09%, mais uma abaixo do previsto.
Ritmo menor - Essa percepção de desaceleração
vai além dos preços. Na semana passada, o Índice
de Atividade Econômica (IBC-Br) registrou estabilidade entre
abril e maio. Calculado pelo próprio BC, o número
mostra que a economia parou de crescer no mês retrasado.
A lista
de argumentos continua no emprego já que foram criados de
212,9 mil empregos formais em junho, abaixo do registrado em maio
e do previsto pelos analistas. A arrecadação de impostos
também ficou aquém do esperado pelos economistas no
mês passado. Juntos, os dois números reforçaram
o entendimento de que a economia está em um ritmo mais fraco
que o previsto inicialmente.
Quando
o BC iniciou o novo ciclo de aperto, a economia crescia a taxa próxima
de 10% ao ano, e a inflação projetada beirava os 6%,
taxas consideradas insustentáveis por economistas.
Desde
maio, no entanto, novos indicadores mostraram freio na atividade
econômica e nos índices de preços. Com isso,
cresceu a pressão dentro do governo para que o BC abandonasse
a política de aumento dos juros ou ao menos reduzisse o ritmo
de alta. As pressões são maiores por conta do calendário
eleitoral. A próxima reunião do Copom está
marcada para 31 de agosto e 1º de setembro. Há ainda
dois encontros até o fim do ano, no final de outubro e início
de dezembro. (AE/FP)
Fonte:
Estadão/Adaptado por Celulose Online
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