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Relator
do Código Florestal critica Greenpeace
Para o parlamentar, o Greenpeace luta por interesses de outros
países.
Por Valter Jossi Wagner
10/05/2010 - O relator da comissão especial que discute mudanças
no Código Florestal, o deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB)
esteve em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, na
sexta-feira (7), como convidado da Reunião das Agroindústrias
Brasileiras, qua aconteceu na matriz do escritório Brasil
Salomão e Matthes Advocacia.
O deputado foi convidado para uma palestra e logo em seguida participou
de uma coletiva com a imprensa. Na coletiva o deputado, declarou
que as mudanças no código florestal brasileiro envolve
muitos interesses em conflito, desde pequenos e grandes produtores,
ambientalistas e governo, até potências estrangeiras.
Por sua postura crítica em relação a algumas
entidades ambientalistas, que atuam no Brasil em defesa de interesses
de outros países, Rebelo disse que está sendo vítima
de uma campanha do Greenpeace, que tenta vinculá-lo aos grandes
produtores rurais.
O deputado destacou que, além do problema ambiental, a discussão
do código mexe com questões ideológicas, políticas
e comerciais, já que tem estreita ligação com
a disputa travada na Organização Mundial do Comércio
entre a agricultura dos países ricos e aquela desenvolvida
em nações emergentes como Brasil.
Aldo Rebelo defende o código florestal, mas critica as modificações
que foram feitas nele, ao longo dos anos. Segundo ele, algumas das
normas introduzidas são impossíveis de serem cumpridas,
prejudicando, em especial, os pequenos produtores. O resultado é
que muitos não conseguem manter sua propriedade e a legislação
termina por ajudar a reconcentração da propriedade
da terra e a migração para grandes cidades.Para o
parlamentar, é preciso adequar a lei à realidade.
Segundo o deputado,o Código Florestal é uma lei de
1965, construída a partir de uma equipe de trabalho criada
em 1961, ainda no governo do presidente Juscelino Kubitschek, e
que tinha como referência o grande jurista Osny Duarte Pereira.
Mas segundo ele, é uma lei de grande qualidade, de vanguarda
diante do mundo. "O Código protege as florestas, a natureza
e estabelece condições de convivência entre
o esforço do país em proteger o meio ambiente e em
se desenvolver, gerar progresso e riqueza para o país",
falou.
Para Rebelo, o problema é que lei de 1965 foi profundamente
modificada, principalmente nos anos 90,"são mais de
16 mil dispositivos legais, o que gerou um impasse, pois a última
grande mudança, via Medida Provisória (MP), alterou
o estatuto da Reserva Legal (RL) e da Área de Proteção
Permanente (APP) e tornou impossível sua aplicação
no país. De tal maneira que o presidente Lula, já
por duas vezes, por decreto, adiou sua entrada em vigor", comentou.
Para o deputado, o código tem muitas contradições,
o que o torna difícil de ser cumprido. Ele colocou alguns
pontos, como por exemplo: Pela lei atual, o índio não
pode usar o método tradicional de fermentação
da raiz de mandioca dentro de igarapé, porque a mandioca
libera o ácido cianídrico, que é considerado
uma substância tóxica e isso se tornou crime ambiental.
O ribeirinho não pode arrancar uma minhoca na beira do rio,
porque também é crime ambiental, a não ser
que ele consiga previamente uma licença. Setenta e cinco
por cento da produção brasileira de arroz, em várzea,
como é produzido na China, no Vietnã, na Tailândia
e Índia, também se tornaram ilegal, por que a várzea
integra a Área de Preservação Permanente.
Outro exemplo é que toda a criação de gado
no pantanal mato-grossense, também virou ilegal. "A
plantação de banana aqui no Vale do Ribeira, que abastece
toda a Grande São Paulo e segura nosso mercado interno contra
a invasão das grandes empresas produtoras de bananas dos
Estados Unidos também está nessa situação,
por ser área de reserva ou proteção permanente.Então
é evidente que há algo errado, não com o código,
mas com as modificações recentes", apontou.
Segundo o parlamenar existem muitos interesses em conflitos. "O
primeiro problema que surge, ao se discutir essa matéria,
é o ambiental propriamente dito. Há um problema ambiental
grave no país, no mundo, e a sociedade se mobiliza para proteger
o meio ambiente, como uma causa democrática e humanitária,
que todos nós apoiamos. No entanto, a questão ambiental
envolve outras disputas também", ressaltou.
De acordo com o deputado há ainda, na questão ambiental,
uma disputa comercial muito forte entre a agricultura dos países
ricos, que é frágil, subsidiada, e a agricultura dos
países emergentes, em especial do Brasil. "Acompanho
pela Comissão de Relações Exteriores e vejo
ali a disputa em torno do algodão, do etanol, do açúcar,
das carnes bovina e suína e da soja, na qual os produtores
norte-americanos e europeus buscam suplantar, no comércio
mundial, a nossa agricultura, impondo o subsídio ou acionando
barreiras ambientais. E, para isso, eles organizam e financiam entidades
muito influentes, Organizações Não Governamentais,
que atuam no Brasil em torno de uma agenda que interessa comercialmente
à agricultura europeia e norte-americana", disse o deputado.
Rebelo criticou muito a atuação das ONGS no Brasil.
"Nos anos 90, conhecemos uma grande ofensiva ideológica
de fragilização do Estado nacional no Brasil, do Estado
que planeja, pensa e executa. Houve até um apelo do presidente
Fernando Henrique para que as ONGs se integrassem ao governo. Ele
dizia que queria governar com elas". Para ele, as ONGs assumiram
esse vácuo, substituíram o Estado frágil, sem
consciência do seu papel de representação dos
interesses nacionais. "As ONGs, principalmente as estrangeiras,
bem articuladas, altamente financiadas, souberam, ocupar esse espaço.
É preciso destacar que 90% dessas ONGs são organizações
de fato, humanitárias, integradas por gente de boa fé,
que ajuda a cumprir um papel na sociedade". Segundo ele, o
problema não são essas, mas aquelas que acham que
podem substituir o Estado, em especial, o papel mediador do Estado
nos conflitos ideológicos, políticos, econômicos
e sociais numa sociedade tão desigual como a brasileira.
Para o parlamentar, o Greenpeace luta por interesses de outros países."O
Greenpeace fica muito ofendido quando eu declaro que uma organização
multinacional, com sede na Holanda, não defende nenhuma bandeira
ambiental no seu país de origem. O Greenpeace exige 80% de
Reserva Legal na Amazônia e, em contrapartida, não
exige nenhum percentual na Holanda. Simplesmente a Reserva Legal
não existe no direito da Holanda.
Mudanças no código
Para o deputado, a comissão está fazendo um serviço
sério e ouvindo todas as partes envolvidas."Nós
ouvimos primeiro os próprios deputados que estão na
comissão, de todos os partidos. Depois, organizações
não governamentais - municipais, estaduais, nacionais e as
estrangeiras. Fizemos consultas a órgãos governamentais
ambientais, às universidades, à Embrapa. Ouvimos mais
de uma dezena de técnicos. Escutamos os agricultores, federações
de trabalhadores da agricultura, Contag, MST, os pequenos, os médios
e os grandes produtores. Ouvimos os setores da construção
civil, da energia elétrica, do reflorestamento. Foram 65
audiências públicas em Brasília e em 19 estados.
Realizamos, de fato, um apanhado dos problemas em plano nacional",
falou Rebelo.
Aldo diz que a mudança, entre outros benefícios, defende
o pequeno produtor cuja área de cultivo, se reduzida em 20%,
torna-se insuficiente. "Embora a RL e a APP não existam
no direito ambiental e florestal de nenhum país europeu ou
dos EUA, creio que o Brasil deve preservar os dois conceitos, adaptando-os
às necessidades do país, à proteção
da natureza e do desenvolvimento, da agricultura, da pecuária
e da infra-estrutura, com as exceções que couberem".
O deputado disse que um exemplo de exceção clara é
o pantanal mato-grossense. Para ele, seria insanidade proibir a
pecuária lá, embora esteja dentro de uma APP. "Já
está tão provado que é uma atividade sustentável,
que se pratica sem degradação, que é insanidade
adaptá-la a uma legislação que não conheça
exceção. Precisamos preservar os conceitos, mas adaptando-os
às necessidades", concluiu o deputado.
Fonte: Celulose Online
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