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100%
dos gases vêm do desmatamento
18/01/2010
- Pesquisa realizada na Universidade de Brasília (UnB) mostra
que o modelo de desenvolvimento agropecuário existente no
país pode se tornar insustentável no longo prazo devido
aos impactos que produz sobre o meio ambiente. Como a economia do
país depende fortemente da agropecuária - setor responsável
por cerca de 30% do PIB -, os prejuízos sociais e ambientais
podem repercutir para toda a sociedade. O estudo foi realizado pelo
biólogo Diego Pereira Lindoso para obtenção
do título de mestre no Centro de Desenvolvimento Sustentável
(CDS).
Essa
conclusão se baseia num estudo de caso de três municípios
do norte do Mato Grosso, estado que se tornou expoente da produção
agropecuária brasileira a partir da década de 1970.
Em sua pesquisa, Diego analisou Alta Floresta (pólo agropecuário
no estado), Sorriso (principal produtor de soja nacional) e Feliz
Natal (localizado na frente de expansão agrícola).
As
diferentes características dos municípios permitiram
que o pesquisador avaliasse como o desenvolvimento socioeconômico
repercute no meio ambiente e vice-versa. Para tanto, utilizou diversos
tipos de dados relativos a desmatamento, emissões de gases
de efeito estufa (gás carbônico, metano e óxido
nitroso), além de indicadores sociais e econômicos.
Diego
constatou, por exemplo, que em Alta Floresta, a participação
da pecuária na emissão de gases de efeito estufa saltou
de cerca de 10% em 2001 para 30% em 2007. No município de
Sorriso, as culturas de soja responderam por 60% das emissões
em 2007 ante a cerca de 5% em 2001. Em Feliz Natal, as emissões
de gases estufa estão quase que 100% relacionadas ao desmatamento.
Como
a capacidade de seqüestro de carbono (remoção
de gás carbônico realizado, por exemplo, por meio da
fotossíntese nas florestas) diminui por causa do desmatamento
para abrir pastos e campos para a soja, a relação
entre o ganho socioeconômico e a perda ambiental fica desequilibrada.
"É inquestionável que o modelo agropecuário
traz benefícios econômicos para os municípios
do Mato Grosso. Mas será que os benefícios valem os
custos ambientais e sociais em médio e longo prazo?",
pergunta Diego.
O pesquisador
afirma que, apesar de haver exceções, os resultados
de seu trabalho mostram de que o modelo brasileiro de desenvolvimento
agropecuário é insustentável em longo prazo
- extensivo em terras, intensivos em recursos naturais, concentradora
de renda, baixa agregação de valor e vulnerável
as incertezas da economia mundial.
"As
mudanças climáticas irão tornar as incertezas
maiores. Nos últimos anos houve avanços, mas ainda
estamos muito aquém do necessário", defende Diego.
"Portanto, não é a pecuária ou a agricultura
que é insustentável, mas sim o modelo de produção".
Além
disso, sabe-se que a perda das florestas não só aumenta
as emissões de gases de efeito estufa, como também
prejudica o ciclo hídrico e a manutenção da
biodiversidade. Contudo, o modelo de produção agropecuária
brasileiro não computa os custos ambientais e as conseqüências
climáticas e, por isso, os preços de nossos produtos
tornam-se competitivos no exterior. Em contrapartida, outras pessoas,
que não têm nada a ver com a produção
agropecuária poderão sofrer as conseqüências
do impacto dessa atividade sobre o meio ambiente.
Diego
assinala que existem estudos que sugerem que a Amazônia é
reguladora do abastecimento de água de propriedades rurais
e cidades do centro-sul brasileiro, da Argentina e do Paraguai.
Assim, o desmatamento para plantar soja ou criar gado no norte do
Mato Grosso pode fazer com que essas populações sofram
com falta d'água ou tenham que pagar mais caro pela água
que consomem no futuro. "Esta é outra pergunta que deve
ser respondida: Quem vai pagar pelos custos ambientais e sociais?".
O cenário
atual, decorrente dos processos sociais e econômicos do passado,
sinaliza para um futuro não muito promissor. O esforço
govenamental é fundamental, mas não é suficientes
para mudar o quadro por si só. "As políticas
públicas são importantes no primeiro momento porque
não adianta condenar um modelo de produção
sem oferecer alternativas de emprego sustentáveis para as
pessoas que estão envolvidas nele". Por isso, a sociedade
desempenha um papel fundamental. "Os consumidores da soja e
da carne brasileira, inclusive da Europa, podem exercer pressão
para a produção seja mais responsável do ponto
de vista ambiental".
Outro
aspecto relevante, afirma, é realizar mais estudos e pesquisas
que abordem a realidade local, pois, dessa maneira, será
possível implementar ações condizentes com
as necessidades de cada localidade. "Sorriso e Feliz Natal
são municípios vizinhos, mas têm situação
oposta, por isso as ações em cada localidade não
podem ser as mesmas".
Fonte:
UNB. Adaptado por Celulose Online
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