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Governo
prepara um pacote florestal
28/10/2009
- O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, anunciou que o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva assinará na próxima
semana um pacote ambiental para "resolver 70% dos temas"
que opõem ruralistas e ambientalistas nas discussões
para a reforma do Código Florestal Brasileiro, em vigor desde
1965.
Às
vésperas da reunião da ONU sobre o clima em Copenhague,
na Dinamarca, um conjunto de decretos, portarias e medida provisória
deve instituir instrumentos polêmicos como a "cota de
reserva legal" e a permissão para a aquisição,
e posterior doação à União, de terras
em unidades de conservação estaduais ou federais por
produtores rurais. "É uma guerra de 20 anos que só
se resolve com legalização das áreas",
disse Minc ao Valor. "Não quero anistiar nem afrouxar,
mas facilitar a vida e dar condições ao produtor de
cumprir a lei".
O "acordo"
fechado no governo por Minc teria apoio da Casa Civil e do Ministério
do Desenvolvimento Agrário, mas ainda enfrenta forte resistência
no Ministério da Agricultura. Sem contar a oposição
de ambientalistas e ruralistas da Comissão Especial de reforma
do Código Florestal na Câmara.
Na
tentativa de angariar simpatias externas, Minc informou que o "acordo"
exclui qualquer possibilidade de anistia total como direito adquirido
contra desmatamentos anteriores, a delegação de poderes
na esfera ambiental aos Estados, a redução da reserva
legal na Amazônia de 80% para 50% e a soma dessa reserva legal
a Áreas de Preservação Permanente (APPs) em
todos os casos. "Sobre isso não tem papo. É inaceitável.
E temos o apoio da Casa Civil. Se os ruralistas aprovassem algo
disso em uma lei, o Lula vetaria", afirmou.
O amplo
programa de legalização ambiental vai ampliar em seis
meses o prazo que acabaria em 11 de dezembro para a regularização
ambiental das propriedades rurais. Assim, pela nova proposta, a
adesão voluntária dos produtores proporcionará
um prazo de 20 anos para o cumprimento dos compromissos que vierem
a ser assumidos. "Isso já está no Código
Florestal. O produtor vai registrar e assinar um compromisso da
alternativa que melhor lhe servir", afirma Minc.
O texto
alinhavado pelo ministro, no grupo de trabalho coordenado pela Casa
Civil, permite atividades em encostas, à exceção
do plantio de cana-de-açúcar e grãos, além
da criação de gado. Estariam mantidas, assim, as plantações
de café, maçã e uva nessas regiões.
As demais atividades ficaram proibidas. O documento também
admite a soma da reserva legal a APPs em áreas de até
400 hectares na Amazônia ou 150 hectares nas demais regiões
do país. "Queriam para todo mundo, mas não dá
para fazer no Cerrado", diz Minc.
A proposta
prevê, ainda, a averbação simplificada e recomposição
de florestas nas mesmas bacias hidrográficas ou biomas onde
está a situada a propriedade, e não mais apenas em
microbacias do mesmo Estado. "Isso muda conceitos e amplia
chance de compensar fora. É uma coisa enorme", afirmou
Minc. Na Mata Atlântica, disse ele, há 24% de vegetação
que poderiam ser usadas no sistema.
O texto
do ministro do Meio Ambiente também institui a "cota"
de reserva legal, por meio do qual seria possível a um produtor
comprar "excedentes" de florestas preservados por outros.
"Premia quem preserva e permite compensação.
E nós preservamos tudo", disse. Além disso, as
medidas permitiriam ao produtor comprar terras ainda pendentes de
indenização pelo Estado dentro de parques e reservas
como forma de compensação florestal. "Eles comprariam
e doariam ao Estado. Resolvemos dois problemas com uma coisa só",
explicou.
Mas
a boa vontade de Carlos Minc parece ser insuficiente para garantir
uma trégua. "Não tem acordo em metade desses
pontos. Somos radicais contra cota de reserva porque isso distorce
tudo ao transformar biodiversidade em dinheiro", apontou o
coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista, deputado Sarney
Filho (PV-MA). Autor da proposta de um Código Ambiental,
o deputado ruralista Valdir Colatto (PMDB-SC) disse que o acordo
com o Palácio do Planalto não previa nenhum desses
pontos. "Nosso acordo com o governo era aguardar os debates
da comissão especial até fim de novembro. E o ministro
Alexandre Padilha sabe disso", afirmou, em referência
ao ministro das Relações Institucionais. A estratégia
dos ruralistas é levar as discussões até a
véspera do novo decreto de crimes ambientais, previsto para
vigorar em 11 de dezembro. O objetivo é forçar o governo
a adiar as exigências e entrar 2010 debatendo as mudanças
no Código Florestal para garantir a bandeira eleitoral em
suas bases.
Pressionado
na esfera política, o ministro Carlos Minc admitiu as dificuldades
para costurar um acordo palatável aos dois lados. "Se
cedermos aos ruralistas, nos desmoralizamos antes de Copenhague.
Se dermos vitória total aos ambientalistas, manteremos todos
na ilegalidade", disse.
Diante
da discórdia geral, Minc afirma que o governo optou por um
"equilíbrio" no tema. "Se desagradar um pouco
de um lado e de outro, estaremos no bom caminho", comentou.
E atacou os parlamentares por uma falta de compromisso em superar
de vez o assunto ambiental: "No Congresso, parece que estamos
em outro planeta."
Fonte:
Valor Econômico
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