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O
que aconteceria em caso de um colapso do dólar?
21/10/2009 - A crise financeira nos ensinou que os mercados podem
cair mais e mais rápido do que as pessoas esperam. O preço
das moradias nos EUA, por exemplo, caiu por três anos seguidos
a começar de 2006, embora a sabedoria convencional dissesse
até então que os preços não iriam cair
nem um pouco.
Vamos
aplicar isso ao dólar, que também deveria resistir
a uma crise. Após se enfraquecer gradualmente desde 2002,
a moeda americana subiu com a crise financeira do ano passado. Mas
acumula uma desvalorização de cerca de 15% desde março,
quando os investidores passaram a mudar para moedas de maior rendimento.
A sabedoria convencional diz que a esses níveis, o dólar
está barato, prestes a iniciar uma recuperação.
"As moedas não avançam muito mais que 20% em
relação às suas médias de longo prazo
em termos reais [ajustado à inflação]. Já
estamos lá", afirma Michael Dooley, economista, fundador
e analista-chefe da Cabezon Capital Management, firma de investimentos
de São Francisco.
Assim,
vale ao menos cogitar a possibilidade de um "colapso"
do dólar. A razão de o estouro da bolha imobiliária
ter tido efeitos tão devastadores foi a falta de imaginação:
bancos, autoridades reguladoras, agências de avaliação
de crédito e outros simplesmente não conseguiam acreditar
que os preços das casas cairiam do jeito que caíram,
de modo que todos foram pegos de surpresa.
Imaginemos
que o dólar caia rapidamente mais 25% contra cada uma das
grandes moedas mundiais, algo mais ou menos parecido com o declínio
sem precedentes de 30% nos preços das casas. Isso significaria
que seria preciso US$ 2 para comprar € 1. O lado bom é
que as empresas americanas teriam mais facilidade para competir
nos mercados internacionais, e o turismo teria uma explosão
nos EUA. O lado ruim é que a inflação subiria
nos EUA devido ao custo maior dos produtos importados. Os americanos
teriam ainda mais problemas para obter empréstimos à
medida que os compradores estrangeiros fossem saindo do mercado
de dívida.
Fora,
o dólar barato tornaria mais difícil exportar para
os EUA, o que afetaria o crescimento do resto do mundo. A China
poderia enfrentar distúrbios sociais. Guerras comerciais
poderiam irromper. E haveria problemas em bancos expostos demais,
aqueles que tinham certeza de que um estouro do dólar não
ocorreria. Como diz o investidor Warren Buffett: "Você
só descobre quem está nadando pelado quando a maré
baixa".
As
autoridades reguladoras dos EUA estão monitorando os bancos
em uma ampla variedade de riscos, incluindo a ameaça de uma
quebra do dólar: "Não estamos acompanhando os
riscos trimestre a trimestre, e sim minuto a minuto", diz uma
autoridade que pediu para não ser identificada.
Após
o pico atingido no segundo trimestre, o dólar acumula queda
de 11% contrato iene japonês, 16% contra o euro, 21% contra
o dólar canadense e cerca de 30% contra o real e o dólar
australiano, que estão se beneficiando do repique no preço
das commodities. Em relação a uma cesta ampla de moedas
de todos os parceiros comerciais dos EUA, ajustada à inflação,
o dólar já caiu 15% desde o pico atingido no segundo
trimestre.
Por
trás da fraqueza do dólar está a taxa de juro
de curto prazo dos EUA, perto de zero. Assim como fizeram antes
com o iene, investidores estão tomando dólar barato
emprestado para vendê-los e comprar moedas de países
cujas ações e bônus prometem retornos melhores.
O Federal Reserve (Fed) está mantendo o juro básico
a 0,25% para estimular a economia americana e ajudar os bancos,
mas um efeito colateral é que o dólar tornou-se o
combustível preferido da aposta especulativa internacional,
que o está sobrecarregando.
Uma
outra força ajuda a derrubar o dólar: os contínuos
déficits comerciais dos EUA, um custo que os EUA estão
pagando por tomar emprestado do resto do mundo. Alguns economistas
acreditam que, em algum momento, os EUA serão forçados
a desvalorizar sua própria moeda para tornar seu endividamento
mundial mais suportável. Embora o rombo comercial tenha caído
para menos de 3% do PIB no segundo trimestre, contra o pico de 6%
em 2006, ele ainda é alto pelos padrões históricos.
Alguns
dos bancos centrais que sustentaram o dólar parecem estar
com medo. Em vez de comprar só dólares para suas reservas
internacionais, estão diversificando para outras moedas.
Os países que revelam a composição de suas
reservas colocaram 63% delas em euros e iene no segundo trimestre,
segundo análise do Barclays Capital. Steven Englander, principal
estrategista de câmbio do Barclays, diz: "O incentivo
desses países é tentar uma diversificação
discreta, e não 'sair fora a todo preço'". A
China não revela a composição de suas reservas,
que superam US$ 2 trilhões.
Membros
do governo Obama não parecem perturbados pela queda do dólar
até agora. O dólar mais fraco ajuda a diminuir o déficit
comercial ao tornar os produtos americanos mais competitivos.
Mas
essa calmaria pode desaparecer da noite para o dia se os mercados
financeiros sentirem que a queda do dólar vai se tornar uma
bola de neve sem controle. Nesse ponto, o "campo de força"
invisível que protege o dólar vai sumir, afirma Martin
Weiss, presidente do Weiss Group, firma de análises de dados
financeiros de Júpiter, Flórida. Weiss diz: "Nos
tornaríamos mortais comuns, mais vulneráveis a ataques
contra a nossa moeda".
Nesse
cenário pessimista, o declínio ganha vida própria.
As vendas geram mais vendas. Bancos centrais mundiais interviriam
para estimular o câmbio, mas os especuladores, tendo já
experimentado o gosto da vitória, não recuariam. Paul
Krugman, economista da Universidade Princeton, certa vez chamou
isso de cenário coiote, numa referência ao personagem
do desenho animado Papa-Léguas, que perde o chão no
alto de um despenhadeiro, mas só começa a cair quando
olha para baixo e vê que não há nada sob seus
pés.
As
especulações de que o dólar poderá sofrer
um colapso podem se tornar autorrealizáveis se os operadores
se apressarem a deixar a moeda. Ashraf Laidi, principal estrategista
de câmbio da CMC Markets, uma corretora de Londres, diz que
"agora há cerca de 30% a 40% de chances de vermos o
dólar cair ao ponto de configurar uma crise".
Os
otimistas com o dólar apontam que a moeda recuperou-se ultimamente.
Mas Laidi não vê nisso uma demonstração
de apoio ao dólar ou à economia dos EUA. Ele diz que
os investidores apenas recuaram de todos os tipos de risco e colocaram
seu dinheiro no instrumento de curto prazo de maior liquidez - justamente
os títulos do Tesouro americano. Englander, do Barclays,
concorda: "Não se trata de uma aposta de longo prazo
na economia dos EUA".
Os
operadores de câmbio não dão muito crédito
às declarações de apoio ao dólar forte
feitas por autoridades americanas. Observam que secretários
do Tesouro desde o governo Clinton vêm dizendo que apoiam
o dólar forte. Mas os EUA não vêm dando apoio
à sua moeda através de compras no mercado desde 1995.
Se
o dólar despencar, o preço das importações
pode subir mais rápido que o esperado pelos economistas.
Seria um desastre para a economia se o Fed tivesse que subir a taxa
de juros para conter a inflação ou defender a moeda,
enquanto o crescimento segue fraco.
O dólar
mais fraco deixaria os americanos mais pobres, ao reduzir o poder
de compra da moeda. E não há garantias de que isso
vai estimular o setor industrial americano, diz David Mallpass,
presidente da consultoria Encima Global. Para ele, a queda do dólar
no fim dos anos 80 mais atrapalhou que ajudou Detroit, ao dar ao
Japão poder de compra para fortalecer suas montadoras. "Podemos
ficar pobres a ponto de não podermos importar muita coisa
e equilibraremos a balança comercial. Mas isso seria bom
para os EUA?"
No
curto prazo, o maior risco seria a falência de quem fez apostas
altamente alavancadas e que está vulnerável a uma
queda do dólar. Isso afetaria não só os negócios
de câmbio, mas também os de derivativos de juros e
os swaps de defaults de crédito. Cinco grandes bancos responderam
por 88% da exposição de risco de crédito a
derivativos em todo o sistema bancário dos EUA no segundo
trimestre.
Ninguém
sabe se o dólar caminha para um desastre. Mas acreditar no
melhor é arriscado.
Fonte:
Valor Econômico
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