Liquidez excessiva derruba cotação do dólar

12/10/2009 - Será que existe alguma coisa de bom a dizer a respeito do dólar? A moeda norte-americana, a divisa de reserva do planeta, está sob ataque em todas as frentes. O poderio do dólar é tamanho que qualquer discussão sobre o comportamento de outra moeda ainda precisa envolver a divisa americana, que está em 86% das transações mundiais de câmbio.

Mesmo que um investidor tenha motivos para acreditar na fraqueza de outra moeda, ele ainda precisa considerar a situação à luz dos prováveis movimentos do dólar. No momento, o consenso é que o dólar, que perde força desde 2002, perderá ainda mais terreno.

Comparada a um índice dos grandes parceiros comerciais dos EUA, a moeda perdeu 41% de seu valor entre 2002 e abril de 2008, o mês que viu sua maior queda. Com o colapso do Lehman Brothers, em setembro do ano passado, os temores quanto à liquidez bancária produziram uma corrida ao dólar, o que resultou em alta de 24% para a moeda em cinco meses. Mas depois disso a tendência de baixa retornou.

Existem diversas razões para a queda do dólar e para as expectativas de fraqueza persistente. A mais imediata delas é a liquidez excessiva, com um excesso de dólares no mercado.

Embora outros países venham mantendo políticas monetárias tão frouxas quanto a dos EUA, em nenhum caso elas parecem estar causando efeito cambial semelhante. Os analistas acreditam que boa parte do dinheiro adicional esteja nos títulos do Tesouro dos EUA, um mercado em que os rendimentos continuam em queda.

Também é provável que o dólar seja pressionado devido ao seu papel como moeda de financiamento para o "carry trade". Transações desse tipo eram populares quando investidores tomavam empréstimos em moedas de baixo rendimento e investiam em economias de maior retorno; agora, elas parecem estar voltando.

A liquidez do dólar, negociado com quase todas as demais moedas, também ajuda a torná-lo mais atraente para financiar o "carry trade", desde que os custos de captação sejam favoráveis. Os analistas do Deutsche Bank definiram o "retorno do "carry trade" em dólar" como uma de suas 11 melhores ideias de comércio global no mês passado, apontando que sempre que a moeda americana esteve entre as três de menor rendimento no mercado, ela caiu em média anualizada de 6%.

Em prazo mais longo, o dólar também está sendo solapado pelo prolongado debate quanto à sua substituição como principal moeda mundial de reserva que pode até já estar em curso. No momento, o FMI (Fundo Monetário Internacional) estima que, no mundo, cerca de 63% das reservas de bancos centrais sejam mantidas em dólar, 27% em euros e o restante em libras ou ienes.

Os observadores começaram a perceber sinais de que os bancos centrais querem diversificar, e reduzir o peso do dólar. Analistas do JPMorgan acreditam que, embora as reservas dos bancos centrais mundiais estejam crescendo no momento em US$ 100 bilhões mensais, apenas metade desse valor está em dólares, o que sugere que a diversificação já está em curso.

No entanto, John Norman, diretor de estratégia mundial de câmbio no JPMorgan, acautela contra compreender esse movimento como um sinal de "desastre para o dólar". "A implicação é que o dólar continuará a cair, mas sem a instabilidade de uma fuga de capital".

Será que algo pode deter a queda do dólar? A melhor chance seria uma intervenção coordenada dos grandes bancos centrais, mas isso é improvável neste momento.

Fonte:Folha de SP. Adaptado pelo Celulose Online