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Era
uma vez uma crise...
24/09/2009 - Há quem fale em fim do começo.
Outros preferem inverter os substantivos e falam em começo
do fim. Os desdobramentos da crise financeira internacional, deflagrada
há exatamente um ano, dão margem para as duas vertentes.
Os primeiros veem os episódios iniciados com os frágeis
créditos subprime nos Estados Unidos como o prefácio
de maiores problemas na economia real. Por outro lado, há
quem acredite que o mais forte desastre econômico desde a
queda da bolsa de Nova York, em 1929, esteja mesmo com os dias contados.
Governos, analistas e empresários endossam esse ponto de
vista. Os mais recentes indicadores econômicos também.
Ao
passo que o crash de 29 foi marcado por ausência de intervenções
estatais, a recuperação que agora se desenha só
está sendo possível em tão pouco tempo graças
à ação dos governos. Desde a quebra do banco
americano Lehman Brothers, que marcou o início da crise,
os americanos abriram mão de US$ 10 trilhões na forma
de injeção de capital nos bancos, resgate de empresas
falidas, garantias e projetos de investimento em infraestrutura.
No
Brasil, contrastando com o ocorrido no resto do mundo, o governo
teve atuações bem discretas e marginais para socorrer
empresas e bancos. Mas foi necessário cortar juros, impostos
e ofertar mais dinheiro no mercado de forma a manter a dinâmica
da economia. Tanto aqui quanto lá fora - Estados Unidos,
União Europeia, Japão, China e outros países
-, tais medidas parecem ter surtido o efeito desejado.
Aqui
as palavras do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, corroboram
o clima de retomada. "Devemos chegar ao final do ano com um
crescimento próximo a 3,5%. Na média o país
deve fechar 2009 com aumento de 1% do Produto Interno Bruno (PIB)",
prevê. Segundo ele, o forte consumo interno tem sido fundamental
para reduzir os efeitos da recessão no Brasil.
E o
início da expansão anunciada pelo ministro, ao que
parece, já começou. Divulgação recente
feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) revela que o PIB do país avançou 1,9% no segundo
trimestre, na comparação com os três meses antecedentes,
e somou R$ 756,2 bilhões a preços correntes. Após
essa divulgação, entidades e economistas começaram
a sustentar a aposta de Paulo Bernardo para um superávit
econômico neste ano. A Federação Brasileira
de Bancos (Febraban), por exemplo, projeta alta de 0,02% para o
PIB em 2009 e crescimento de 3,98% no exercício seguinte.
Também
o índice de desemprego vem caindo gradativamente. Dados do
Ministério do Trabalho revelam que em agosto foram criados
mais de 242 mil empregos no país, recorde da série
histórica para o período e o melhor resultado do ano.
Em 2009 já foram criados mais de 680 mil postos de trabalho,
aponta o ministério. "O que garante o crescimento econômico
é a massa salarial do trabalhador, que é o maior consumidor
do país e faz o dinheiro circular", disse o ministro
Carlos Lupi, na solenidade de divulgação dos resultados.
É lenta, mas virá
Os dados formam um pano de fundo congruente com a opinião
de analistas ouvidos por Indústria de Minas. Todos sinalizam
que o pior da crise já passou e apontam para uma retomada,
ainda que lenta.
O professor
de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV),
Jean Max Tavares diz ser o volume de crédito uma das bases
da recuperação econômica. Segundo levantamentos
do sistema financeiro, o volume já voltou ao nível
pré-crise, com a Caixa Econômica Federal batendo recordes
de financiamento de imóveis.
Tavares
considerou adequadas as medidas do governo brasileiro para combater
a crise. Ele cita a isenção de IPI para segmentos
de linha branca, construção civil e automobilístico,
e a queda dos juros como fatores que ajudaram a movimentar a cadeia
produtiva. Defende, porém, que a eliminação
de impostos já poderia ter acabado. "Se o volume de
crédito voltou ao normal, não há motivo para
continuar isentando o setor automobilístico do IPI. O governo
precisa arrecadar para honrar seu déficit público".
Mas
embora o país tenha deixado de arrecadar R$ 1,817 bilhão
no primeiro semestre com a redução de IPI para automóveis,
houve um aumento de R$ 1,258 bilhão na receita com outros
tributos federais devido às vendas impulsionadas pela desoneração.
Com isso, o custo do benefício fiscal aos cofres públicos
ficou em R$ 559 milhões.
Lições para o futuro
Na opinião dos professores a principal lição
que fica é a de que o mercado não pode ser totalmente
livre. Segundo Tavares, um exemplo de como o controle estatal pode
ser benéfico para a economia é o fato de os bancos
brasileiros não terem entrado em crise como os americanos.
"A fiscalização e o rigor para conceder crédito
são maiores no Brasil. A Caixa Econômica Federal chegou
a indeferir 54% dos pedidos de financiamentos para imóveis
no auge da crise", recorda.
Já
para o professor de economia da PUC do Rio de Janeiro, Márcio
Garcia, o sistema financeiro deve ser regulado de forma inteligente.
"Tão leve quanto possível, e com informações
transparentes para que os investidores saibam onde estão
colocando seu dinheiro", detalha.
Quanto
a oportunidades de novos negócios em meio ao turbilhão
financeiro, a estratégia e o antecedente da empresa vão
definir se ela poderá ser caça ou caçadora.
De acordo com o coordenador do curso de Administração
da FGV, Ricardo Moreira, a compra da Sadia pela Perdigão
no final do ano passado ilustra bem essa questão. "A
primeira se arriscou muito no mercado financeiro e perdeu R$ 1,9
bilhão com derivativos cambiais. Entrou vulnerável
na crise e acabou sendo comprada pela Perdigão, alvo da própria
Sadia um ano antes", explica.
De
acordo com o presidente do Conselho de Política Econômica
e Industrial da Fiemg, Lincoln Fernandes, a iniciativa privada precisa,
no momento de retomada, fazer grandes investimentos já de
olho no longo prazo. Aproveitar financiamentos públicos,
hoje menos onerosos, é um de seus conselhos. "Outro
aspecto importante é apostar na inovação como
forma de sobrevivência no mercado, abrindo a empresa para
o mundo em busca de parcerias tecnológicas", sugere.
De volta à ativa
Os prognósticos para Minas Gerais, um dos estados mais afetados
pela crise, indicam uma recuperação lenta. Para Fernandes,
muitos segmentos ainda sofrem com a perda de competitividade e nível
de endividamento mais alto. "Pelo menos o período negro
já ficou para trás", pondera. De acordo com ele,
o setor de bens de consumo está se recuperando primeiro.
Mas de forma assimétrica.
Não
faltam esforços para acelerar o passo. Depois do furacão,
os vários setores da indústria não querem dormir
no ponto. Um dos mais afetados pela crise internacional financeira,
o polo de ferro-gusa de Minas Gerais, já opera com 67% da
capacidade produtiva. Salto considerável, já que chegou
a operar com 18% no auge da recessão, no início deste
ano. "A atual produção mensal é de 295
mil toneladas. E a marca histórica é de 450 mil toneladas.
Estamos voltando ao normal aos poucos", comemora o presidente
do Sindicato das Indústrias do Ferro no Estado de Minas Gerais
(Sindifer-MG), Paulino Cícero de Vasconcellos.
Fonte:
Site FIEMG
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