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Crise
muda perfil da balança comercial
13/04/2009 - Na última reunião do G-20, realizada
mês passado em Londres, o presidente norte-americano Barack
Obama deixou claro que os Estados Unidos não mais seriam
a máquina de absorver os excedentes produzidos em quase todos
os demais países do mundo. Reflexos desta nova situação
já foram sentidos no Brasil, quando o superávit de
US$ 448 milhões que o País obteve com os EUA no primeiro
trimestre de 2008 se transformou em um déficit de US$ 1,8
bilhão em igual intervalo deste ano. No mesmo período,
o Brasil reduziu de US$ 2 bilhões para US$ 220 milhões
seu déficit com a China.
Com
a crise atingindo em cheio sua economia, os EUA estão importando
menos têm mais excedente de produção com menos
consumo interno, e isso faz com que eles sejam mais agressivos em
suas exportações, avalia Roberto Gianetti da Fonseca,
diretor do departamento de Relações Internacionais
e Comércio Exterior da Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo (Fiesp). "É um ajuste
da balança comercial dos EUA, não só com o
Brasil, mas com o resto mundo. A economia norte-americana precisa
deste ajuste para reduzir seu déficits fiscal e comercial,
que eram insustentáveis", afirma.
Para
André Sacconato, da Tendências Consultoria Integrada,
esse movimento de redução do déficit comercial
já está claro. Antes da crise, argumenta, o Estados
Unidos financiavam o seu rombo em contas externas por meio da venda
de títulos públicos. "Isso deve mudar, diminuir
a magnitude. E eles serão obrigados a fazer o ajuste na balança
comercial, pois já não tem como financiar o déficit
com lado de capitais", diz.
A origem
do primeiro superávit dos EUA com o Brasil em quase uma década
está no fato de que as exportações norte-americanas
caem em um ritmo menos acelerado do que as importações,
lembra Gianetti. O economista destaca que essa mudança é
normal dentro das condições atuais, e que o saldo
a favor dos Estados Unidos é uma "tendência, e
talvez permaneça nos próximos dois ou três anos".
Sacconato
afirma que é possível que o Brasil encerre o ano com
déficit com os Estados Unidos, dado que o PIB brasileiro
deve crescer 0,3% em 2009 em um cenário de retração.
Para ele, no entanto, o País voltará a registrar superávits
passada a crise mundial. "É só uma conjuntura
da crise", avalia.
"Não
acredito que seja definitivo [o superávit dos EUA com o Brasil]",
afirmou o secretário executivo do ministério do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio (Mdic), Ivan Ramalho. A queda
principal das exportações brasileiras foi de produtos
industriais, "e é por isso que em março a China
foi o primeiro destino comercial das exportações brasileiras,
porque eles compram mais produtos agrícolas, e estes não
registraram quedas expressivas", salientou.
Avanço
da China
Em março a China ultrapassou pela primeira vez os EUA como
o principal destino das vendas externas brasileiras, adquirindo
um total de US$ 1,73 bilhão, enquanto os Estados Unidos compraram
US$ 1,27 bilhão das exportações do País.
Segundo Hsieh Yuan, diretor do China Desk da KPMG no Brasil, "tudo
indica que a China vai ser o grande parceiro comercial do Brasil,
quem sabe até neste ano, ou no próximo." A complementaridade
nas pautas comerciais dos dois países seria um dos principais
motivos para que a China assuma este posto. O gigante asiático
tem uma necessidade muito grande "de commodities e proteínas,
que é suprida pelo Brasil, ao mesmo tempo em que precisamos
de componentes e maquinário que a China fabrica", explica
Yuan.
"A
tendência é a China se tornar um parceiro mais importante
do que Estados Unidos em termos de superávit", completa
Sacconato. Enquanto durar a crise, o déficit com o país
asiático continuará em queda. "Batemos recorde
em volume de exportações de minério para a
China, que está com um pacote de infraestrutura e aproveitando
o preço baixo das commodities", disse, acrescentando
que, por outro lado, esse aumento de demanda tende a pressionar
as cotações para cima.
Entretanto,
uma invasão de produtos chineses no Brasil foi descartada
por Yuan. Ele considera que o próprio mercado chinês
já está se autorregulando em relação
ao nível de atendimento adequado ao novo patamar de demanda
externa. "Não consigo ver essa invasão. As importações
brasileiras, mesmo de setores como calçados e vestuário
não têm crescido tanto em relação aos
anos anteriores, nada que possa caracterizar uma invasão."
Já
José Ricardo Bernardo, da Guedes & Pinheiro, tem outra
visão. "O que me preocupa é a China não
conseguir vender para Estados Unidos e Europa e focar no Brasil."
Por enquanto, os chineses não entraram com força,
ou seja com preços reduzidos, em mercados como o de chapas
de aço, mas isso pode estar em curso neste trimestre, avalia.
"A partir do segundo trimestre isso vai ficar mais claro. Como
a indústria nacional já está sendo prejudicada
com a menor demanda interna, o cenário irá piorar.
A indústria tem que se proteger."
Fonte:
Gazeta Mercantil. Adaptado por Celulose Online
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