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Setor
de papel e celulose terá 2009 dificílimo
16/03/2009 - O Brasil é reconhecidamente uma referência
no setor de papel e celulose. Os custos de produção
das empresas estão entre os menores do mundo. Mais de 30
anos de investimentos em pesquisa genética permitiram que
o eucalipto brasileiro fique pronto para o corte em um tempo muito
menor do que em outros países. A farta disponibilidade de
terras cultiváveis e o clima favorável completam a
lista das principais vantagens competitivas do país no setor.
Nada
disso, porém, impediu que as empresas tenham um ano extremamente
difícil. "Em 2009 vamos cuidar da própria sobrevivência",
diz Elizabeth de Carvalhaes, presidente-executiva da Bracelpa (Associação
Brasileira de Celulose e Papel).
O primeiro
golpe no setor foi dado pelo dólar. A moeda americana disparou
a partir de setembro do ano passado e pegou as principais empresas
no contrapé. Apenas a Aracruz tinha feito apostas de altíssimo
risco em derivativos, mas a Suzano Papel e Celulose, a VCP e a Klabin
também registraram aumento de despesas com dívidas
em moeda estrangeira e prejuízos milionários no final
do ano passado.
Para
proteger os preços, os maiores fabricantes mundiais de celulose
anunciaram cortes de produção. Cerca de 2 milhões
de toneladas deixaram de ser produzidas no ano passado. Em reunião
com analistas da corretora do Santander, Roger Wright, fundador
e diretor-gerente da Hawkins Wright Ltd., uma consultoria independente
especializada no setor, previu um novo corte de 2 milhões
de toneladas no início deste ano.
Apesar
disso, o processo de ajuste continua longe do fim. As maiores empresas
do setor trabalham hoje com estoques de 50 dias - quando o normal
seria de 35 dias. O excesso de oferta derrubou os preços
do produto no mercado internacional em quase 50%, segundo a Bracelpa.
Após atingir quase 850 dólares no pico de 2008, a
tonelada de celulose caiu abaixo de 500 dólares em dezembro,
não se recuperou no início deste ano e, mesmo assim,
os principais fabricantes têm dado descontos no valor de tabela
para escoar a produção. Nem a forte alta do dólar
foi suficiente para compensar a queda dos preços.
Em
conversa com analistas da corretora do Unibanco, o diretor de relações
com investidores da Suzano Papel e Celulose, André Dorf,
admitiu que os preços podem cair ainda mais antes de uma
recuperação no médio prazo. Já o consultor
Roger Wright estudou as últimas recessões e concluiu
que em geral os preços de celulose caem entre 10% e 30% e
a recuperação dos patamares anteriores leva entre
dois e quatro anos. Para ele, não há motivo para que
a atual recessão seja diferente.
Para
se ajustar aos novos níveis de demanda, a indústria
brasileira decidiu postergar os investimentos que ainda não
estavam em andamento. A International Paper inaugura neste semestre
uma fábrica com capacidade para a produção
de 200 mil toneladas de papel por ano no Mato Grosso do Sul. Já
a VCP começa a produzir celulose no mesmo estado em uma fábrica
com capacidade anual de 1,3 milhão de toneladas. Já
os projetos com construção ainda não iniciada
foram suspensos. Duas fábricas de celulose no Rio Grande
do Sul, uma da VCP e outra da Aracruz, vão atrasar. A Suzano
deve decidir nas próximas semanas se adia ou não a
ampliação da fábrica em Mucuri (BA).
O setor
de papel era tido por analistas como mais resistente à crise.
Os fabricantes chegaram até mesmo a reajustar seu preços
no quarto trimestre porque são mais dependentes do mercado
interno e de países da América Latina, que absorvem
mais de 60% das exportações. Esses mercados demoraram
um pouco mais para sentir os efeitos da crise, mas neste momento
já há sinais claros de efeitos surpreendentes - e
ao mesmo tempo, devastadores - sobre a demanda.
No
primeiro bimestre, a produção de papéis para
imprimir e escrever caiu 26%. O papel-cartão teve queda de
29% e o papel de embalagem, de 10%. Os grandes compradores de embalagens
entraram em um processo de redução dos estoques no
começo deste ano, derrubando as vendas. Na semana passada,
a Klabin anunciou o fechamento de uma fábrica de papel reciclado
em Minas Gerais e a demissão de 118 trabalhadores.
Ajuda
do governo?
Para minimizar os efeitos da crise, o setor apresentou diversos
pleitos ao governo. Com previsão de investimento de 11 bilhões
de dólares até 2011, as empresas negociam a isenção
de impostos para a construção de novas fábricas
como forma de evitar o engavetamento dos projetos. "Essa é
a política existente em boa parte dos países competidores.
Depois que o dinheiro é investido, o governo pode cobrar
impostos sobre a produção", diz Elizabeth, da
Bracelpa.
A associação
negocia ainda a ampliação das linhas de crédito
para as exportações de commodities e um apoio para
o seguro do crédito. O setor exporta quase 500 milhões
de dólares por mês, mas boa parte desses recursos demora
até 180 dias para entrar no caixa das empresas. Até
meados do ano passado, algumas das maiores seguradoras do mundo,
como a AIG, dividiam o risco desses pagamentos com as empresas.
Com
a crise, no entanto, essas operações foram paralisadas
e a agora a Bracelpa defende que os bancos públicos passem
a prestar o serviço - evitando pressões sobre o caixa
das empresas. "Essa é uma pré-condição
para o Brasil manter a posição de quarto maior produtor
de celulose do mundo, conquistada no ano passado", diz Elizabeth.
O setor
de papel negocia ainda a ampliação dos programas governamentais
de distribuição de livros didáticos em escolas
públicas. Também quer que o governo distribua 48 milhões
de cadernos para os alunos na volta às aulas em 2010 como
forma de ampliar a demanda pelo papel. Como o setor produz embalagens
para material de construção, a confirmação
do pacote habitacional que prevê a construção
de 1 milhão de residências também pode trazer
um alívio importante.
Por
último, a Bracelpa defende a rápida aprovação
da MP 451, que obriga o recadastramento de empresas que importam
papel para a produção de livros e jornais com imunidade
tributária. A associação diz que 551 mil toneladas
de papel importado com imunidade no ano passado não se transformaram
em livros e foram vendidos como papel para imprimir ou outros fins.
A MP aguarda votação na Câmara e depois ainda
precisa ser aprovada pelo Senado, mas o setor também cobra
uma fiscalização mais rigorosa da importação
de papel pela Receita Federal após sua sanção.
Para
a Bracelpa, o setor não voltará a vislumbrar um cenário
tão positivo quanto o de 2008 nem que todas essas medidas
sejam implementadas. "São medidas de curto prazo para
atravessarmos a crise. É um socorro imediato para pararmos
de afundar", afirmou Elizabeth. "Eu, que normalmente sou
otimista, admito que será um ano extremamente difícil.
As empresas estão cuidando apenas da própria sobrevivência.
O que não tiver efeito direto nas vendas está fora
da agenda."
Fonte:
Exame. Adaptado por Celulose Online
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