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Crise
deve punir mais os salários elevados
23/02/2009
- Os trabalhadores com salários mais altos estarão
entre os que sofrerão mais os efeitos da crise mundial no
mercado de trabalho, segundo prevê estudo do Ipea (Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada).
A previsão para 2009 ocorre sobretudo em razão de
demissões feitas por grandes companhias do setor industrial,
que devem se intensificar. Na quinta-feira, a Embraer, por exemplo,
anunciou o desligamento de 4.200 funcionários.
O Ipea
avalia que os empregados com rendimento acima de dez salários
mínimos (R$ 4.650) são os que deverão ter mais
dificuldade em encontrar e manter o emprego. É nessa faixa
salarial que devem se concentrar as demissões e a rotatividade
de trabalhadores (troca de salários altos por baixos).
Também
podem encontrar mais dificuldade em se manter no mercado os empregados
com salários na faixa de 1,6 a 5 salários mínimos
(R$ 744 a R$ 2.325). São trabalhadores que foram incorporados
mais recentemente às empresas, durante o período de
expansão econômica, e não ocupam vagas consideradas
essenciais em uma companhia. Com menos tempo de serviço,
o custo da demissão também é menor.
A previsão
apontada pelo estudo do Ipea considera o que já ocorreu com
o mercado de trabalho após três crises econômicas
enfrentadas pelo Brasil -de 1990 a 1992, 1999 e 2003.
Quem
ganha até 1,5 salário mínimo (R$ 697,50) será
menos atingido pelo ajuste no mercado. Segundo o Ipea, esse trabalhador
está em uma faixa de salário protegida pelos ganhos
do salário mínimo e não sofre os efeitos da
rotatividade.
Os
trabalhadores com salários de cinco a dez mínimos
(R$ 2.325 a R$ 4.650) terão menos dificuldades para enfrentar
os efeitos da crise porque essa faixa de rendimento concentra o
pessoal de nível técnico, mais qualificado, e profissionais
que foram alvo de investimento das companhias durante o período
de expansão econômica.
A FGV
(Fundação Getulio Vargas) constatou que trabalhadores
com renda mais alta já foram afetados pela crise. Pesquisa
sobre rendimento do trabalho mostra que, desde 2004, a cada 100
pessoas, 80 se mantinham na classe AB de um ano para outro. De outubro
a dezembro de 2008, no entanto, esse número caiu para 75.
Isso
significa encolhimento das classes mais altas, já como efeito
da crise mundial, segundo o professor Marcelo Neri, diretor do Centro
de Políticas Sociais da FGV. O estudo, coordenado por Neri,
considera que estão na classe AB as famílias com rendimento
do trabalho superior a R$ 4.807 mensais.
"A
tendência para 2009, considerando os efeitos das crises no
passado, é de o emprego ser mais favorável para quem
ganha menos e para quem busca oportunidades no comércio e
nos serviços. A crise afetou mais a indústria, que
paga os melhores salários", diz Marcio Pochmann, presidente
do Ipea.
As
medidas adotadas por meio de políticas públicas de
governos federal, estaduais e municipais também visam, segundo
ele, proteger o trabalhador com menor rendimento.
Micro
e pequenas
A oferta de vagas deverá ser maior neste ano, segundo o Ipea,
nas micro e nas pequenas empresas que empregam até 50 pessoas.
As grandes companhias já iniciaram programas de demissão
no fim do ano e devem continuar enxugando o quadro de pessoal em
2009.
A exemplo
da Embraer, a Vale também cortou o número de trabalhadores
-desde dezembro passado demitiu 1.300 funcionários, e outros
5.500 entraram em férias coletivas. O Brasil já perdeu
797,5 mil empregos com carteira assinada desde novembro passado,
segundo o Ministério do Trabalho.
"As
grandes organizações, principalmente as que não
passaram por processos de reestruturação antes da
crise ou as que retardaram ajustes porque a produção
estava em alta, devem passar por mudanças, com cortes [de
vagas e salários], sobretudo nas áreas gerenciais.
A busca por eficiência se torna mais aguda em um cenário
de crise", diz Gilberto Shinyashiki, professor de Recursos
Humanos da USP em Ribeirão Preto.
Se
a dificuldade para obter crédito se mantiver, entretanto,
Marcel Solimeo, economista da ACSP (Associação Comercial
de São Paulo), avalia que os pequenos lojistas deverão
demitir, e não empregar. "Essa situação
está condicionada à oferta de crédito. Não
temos dúvida de que, se houver vagas, será para pagar
salários baixos, porque a ideia é cortar custos."
Para
o economista Fábio Romão, da LCA Consultores, o comércio
terá condições mais favoráveis do que
a indústria para gerar empregos em 2009 porque o setor será
impulsionado pelo aumento real de 6,3% concedido ao salário
mínimo neste ano e pela menor pressão da inflação.
"Em 2008, o IPCA acumulou alta de 5,9%. Para este ano, a nossa
projeção é de inflação de 4,9%.
Essa desaceleração, associada ao ganho do aumento
real, cria condições mais favoráveis para o
setor."
Até
setembro, todos os setores da economia registraram alta no emprego
e na renda. A massa salarial cresceu 8,2% em 2008 ante 2007. Na
projeção de algumas consultorias, o crescimento agora
deve ficar entre 0,5% e 1%. "O mercado de trabalho vai refletir
o desempenho do país", afirma Fabio Silveira, sócio
da RC Consultores.
Fonte:
Folha de S. Paulo. Adaptado por Celulose Online
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